Do Que Me Cabe no Bolso
De tudo aquilo que cabe no bolso, trago somente poemas escritos, breve silêncio para o meu repouso e uma inquietude prenunciando o grito.
No labirinto deste devaneio, solto as amarras do meu sentimento, assim liberto todos os meus anseios feito andorinhas, planando no vento.
Toda fortuna que juntei na vida foram palavras que eu garimpei na mina escura da alma sentida, parto de luz dos versos que criei.
Palavra afasta, quando envenenada, ou aproxima no poder que tem, fica silente, na folha timbrada, ou se escancara na boca de alguém.
Cura feridas, ao longo da estrada, se for usada em nome do bem, no entanto corta, qual gume de espada, na mão errada de quem lhe detém.
Vive no bolso da sabedoria, nos alfarrábios dos indagadores, abre trincheiras nos versos que cria por entre as pedras, semeando flores.
Mas também serve pra enganar os tolos e manobrar o rebanho iludido, mansos cordeiros à mercê dos lobos pelas veredas dos vales perdidos.
Quanta palavra o homem joga fora sem refletir ao menos uma vez, outras exatas, se perdem da hora, pra se tornarem apenas talvez.
Palavra fluente, leito de rio, corre nas veias procurando a foz, deságua plena, em seu desvario, na cachoeira, no timbre da voz.
Eu moldo o verso em barco de papel e a brisa leva correnteza adentro, desenho estrelas no forro do céu, transformo em arte os meus desaventos.
Eu fiz morada no imaginário, esconderijo onde sou feliz. Sem endereço, sem destinatário, casa invisível que eu mesmo fiz.
Lá neste país, não existem leis, não há governo, nem fome, nem frio, eu sou herdeiro do que me tornei, um visionário que um dia partiu.
Não me procurem na realidade, eu vivo no extremo da fantasia, vivo exilado desta sociedade, no mundo abstrato da poesia
Trago no bolso minha vida inteira, folhas escritas, repartidos temas, neste universo que não tem fronteira... Da minha alma... que se fez poema.