Herança da Cor da Terra
Sou filho do tempo que não se curva sou neto da cinza espalhada ao chão, minha pele é terra que o vento turva quando o mundo nega meu coração, nos meus olhos mora a chama que curva mil vozes que gritam sem ter perdão, nas margens da dor que nunca calaram da angustia dos filhos que sentirão.
Não me escondo à sombra do que é passado meu sol nasceu bem no meio do espinho, fui calado, preso, fui renegado mas cresci como cipó no caminho, se hoje falo livre e aquerenciado que ser negro é nascer com pergaminho, minha cor é herança que o tempo negou para construir meu próprio mundinho.
Nasci com a cor da noite entre os dedos filho do barro e irmão da ventania, trago no lombo os ecos dos segredos de quem regou o chão com valentia, no peito a fé que se acende os enredos no olho o brilho da sabedoria... minha raiz resiste aos arvoredos feita de sombra, lágrima e poesia.
Cresci na palha junto ao fogo manso ouvindo o berro antigo do tropeiro, o som do tambor ecoa no remanso do tempo lento e sábio do campeiro, na roda a avó bordava o céu em tranço cantando a dor num tom de violeiro, na pele herdei o sol que nunca cansa no sonho, a alma livre do terreiro.
A mão que planta é a mesma que acarinha que bate o milho e amassa o pão sagrado, a cor que trago é luz e não ferrugem é chão molhado, quente e abençoado, por cada fio de dor que me caminha tem um clarão de amor ressuscitado, sou terra viva, canto e ladainha sou o silêncio que já foi gritado...
Na beira d’água o rosto se reflete igual ao rio não tem cor marcada, na roda grande o tempo se repete meu passado nunca é calada a estrada, cada cicatriz que o corpo interpreta é um mapa vivo de alma lapidada, filho antigo das raízes discretas sou cor de chão semente cultivada.
Trago a memória do navio negreiro que se escondia sob o mesmo céu, na cor que o mundo chama de saudade há mais verdades do que pensa o réu, trago no sangue a força da humildade toda liberdade escrita a cinzel herança é cor, é garra, é identidade é ser inteiro até no mais cruel.
O tempo passa e o campo nos ensina que ser semente é mais que germinar é resistir à seca que domina e, mesmo assim sorrir ao madrugar, a cor que herdei tem alma campesina tem voz de mãe que reza ao luar, não vim da sombra vim da luz mais fina sou descendente do verbo sem par.
Se hoje piso firme nessa trilha é porque antes muitos caminharam, se o chão me acolhe é porque a coxilha carrega os passos que me levantaram, minha cor é raiz que se compartilha é nome antigo que os ventos cantaram, sou esperança, fé, e maravilha dos que caíram mas não se entregaram.
Por bem, se perguntarem minha origem respondo sou da cor que fez a estrada, sou negro sol, sou vento sem vertigem sou cicatriz de história demarcada sou mais que o tom da pele na paisagem sou Terra-Mãe por dentro enraizada... herança de ser, quem sabe a imagem no espelho vivo de alma libertada.