Sinal da Cruz
Dobram-se os joelhos junto ao catre... A mão que até há pouco segurava a enxada desliza calma da testa... ao peito já cansado, e em horizontal ascensão a dois pontos cardeais fixados. Sinal da cruz... ...em nome do Pai, do Filho, do Espirito Santo... Amém! E unem-se mãos e dedos no mais sacrossanto dos gestos.
Num tom servil, uma prosa com Deus. Olhos cerrados... alma elevada... ...coração aberto e a certeza de me transportar para além do plano em que me encontro, para além do mundo que me cerca... ...além da vida que me sente!
Peço notícia dos meus. Dos que vivem apenas em meus pensamentos. Almas boas que se apartaram da matéria e há muito tempo fazem falta pra mim... no devaneio dos recuerdos, me aperta a saudade em cada mate, nas noites de estrelas pungentes onde cada brilho latente parece um aceno pra mim.
Um Pai Nosso, e rendo graças novamente. Agradeço por mais um dia no campo... pelo trabalho duro e honesto que me sangrou as mãos, e a mesa farta no viço do trigo... as bocas cheias e os olhares de fé!
Por puro, crente e... cansado, adormeço... os anjos que me acompanham me conhecem, me sabem por inteiro. Me levam pela mão por entre campos verdes aonde, em paz, habitam os meus.
Sonho com os abraços que envolviam meu corpo pequeno, me aquecendo em noites frias de bom fogo e pouca cobertura... ...mãos ásperas entrelaçadas às minhas num mate de silêncio, a me alcançar a cuia em tremeluzente movimento ritmado.
A noite, no seu lerdo passar, me traz a imagem da minha primeira tropeada... um petição sogueiro que meu pai arrocinou e enfrenou pra os meus arreios de estribos curtos e rédeas atadas.
Quando a manhã clareia, a alma regressa ao corpo... ...o abrir dos olhos carrega a mesma mansidão que os fez fechar. E o silêncio, guardado pela noite grande no seu mistér enigmático, pela inércia do campo, se faz presente para a primeira oração...
Ao empeçar o dia não se agradece... se pede! Novamente joelhos ao chão e o mesmo rito que já me é tão costumeiro.
Rogo a Deus que me mantenha justo, que me aponte os erros e me dê coragem para corrigi-los. que nunca me dê autoridade para julgar ou condenar... ...que eu seja bom para minha esposa e filhos, e que tenha sabedoria para passar adiante tudo que aprendi com meu pai neste plano.
Por fim... peço que quando eu tombar no santo chão da pampa ouvindo o choro da sanga no seu lento andejar... que eu vá sem mágoa ou rancor pra onde mereço, de olhos fechados pra terra... ...e bem abertos pra o céu! Saberei que não é o fim... ...mas um reencontro num novo começo!
Em nome do Pai, do Filho, do Espirito Santo... Amém!