A Cruz dos Degolados
Solitária na curva do caminho, a cruz ostenta o lenço maragato. Evoca um silêncio de retrato, na Picada de São Martinho. Não possui a coroa de espinhos, na rota do massacre sem igual, Volta da Capoeira... no perau, e exprime a herança dos avós, acordes de uma trilogia atroz, batidas sincopadas de funeral.
A cruz ao largo da estrada, doze vítimas em reminiscências, heróis da nossa querência, sopro de brisa na madrugada, ecos dos brados na voz calada, de vida, morte e traição. Distante a intolerante mão… Derrama o sangue na garganta, o taura inerte não se levanta, assassinado… prostrado ao chão!
Longínquo o reverso da intriga, na cor do lenço o respaldo amigo, o nó quadrado, a forma do abrigo. São versos que a melodia irriga. No ferro branco é bom de briga! Expressa ciente a sina maragata, nos campos, nas várzeas e matas. Rincão de caudilhos em valentia, no andejar das noites e dos dias, o sangue encharca o fio da faca.
Na vasta pampa verdejante, adagas tilintam fachos de luz, nas orações da solitária cruz, o passado dos combatentes, bravos de almas reluzentes, espelho de coragem e guerra, encarnado de canto e serra, Testemunhas quietas da história. São tauras cobertos de glórias, no desejo de paz nesta terra.
Há tijolos na Cruz dos Degolados! E cimento na força que estampa. O vermelho do sangue na garganta, ecoam a dor dos gritos abafados, um facão sem cabo abandonado, no moroso corredor da estrada, na sombra da tarde a emboscada, o brio e bravura destemida, imponente a cruz ali erguida, guardiã das noites enluaradas.
Traços e traumas da trajetória, herança de um povo ousado. Incandescente manto colorado, nas páginas amarelas de memória, e singra na cor do lenço a vitória. A Cruz dos Degolados: um monumento! No vigor do percurso: um tormento! Ao som de uma melodia triste, morna melancolia que persiste, pañuelo rojo… que flana ao vento.
Na lamuriosa tarde caminheira, ao longe as notas de um violino… Lembra os heróis e os destinos, no mundo maula e sem porteira. Sangue na jornada estradeira, semeando versos reincidentes, germinem corações e mentes, e floresçam valores e encantos. E que não haja futuros prantos. Pelas gargantas da nossa gente.
No lento trotear dos anos, a silhueta da cruz nas orações, nas invernadas e nos galpões, revendo o mundo veterano, cada gaucho… um paysano. Maragatos no encanto celestial, quando brota a rosa no quintal. Transbordam ruídos da natureza, uma imagem singela de pureza… pousa na cruz… um cardeal!
A jornada segue inclemente, nos versos que trazem evidência, dos que rogaram clemência. diante do facho de sol-poente, a razão, neste caso, é ausente, a história é trágica e crua, nas asas do pensamento flutua, um farol na trilha do andante, A cruz altera cada semblante. Um vulto no clarão da luz da lua.
Neste lugar mítico e sacrossanto, almas em transcendência fraterna, encontrem o sentido da paz eterna, das faces de homens em prantos. As verdades e seus desencantos. Um poema sob céu azul-marinho, em letras góticas de pergaminho, sem fronteiras para o esquecimento, rezamos à memória e ao sofrimento, dos Degolados de São Martinho.