Notas de uma Acordeona para o Clarão da Lua
Na minha mente esta milonga induz, Notas mágicas de um clarão da lua, Dos meus dedos que a guitarra conduz, Polvadeira de sonhos na noite escura, Dedilho o compasso que me propus, Rompendo as grades da clausura.
As mãos suplicam num oratório, Para seguir nesta longa invernada, No limiar das sombras no território, E chumbo diante da estrada, Recordo lágrimas de um velório, No adeus para última morada.
Recrio rimas no dedilhar sincero, No crepúsculo reacendo o braseiro, E no silêncio da fagulha eu reverbero, Solitárias notas num cativeiro, Vai longe o grito do quero-quero, Na longa cauda do Pampeiro.
Acompanho ao longe o sol-poente, Pra seguir adiante em louvação, Vejo reflexo dos versos nas vertentes, E solfejo quimeras no acordeão, Some a luz na tarde incandescente, E dilacera o meu coração.
Noite adentro, a alma segue seu destino, Embalada por quietudes de solidão, No escuro da noite eu me alucino. Na serenata que transborda em vão. Ecoando as alegrias em desatino. Quando abre a “cordeona” com paixão,
Brilham as estrelas como diamantes, E cintilam na abóbada celeste, A música flui, como rios constantes, Num eterno conto do meu ser inconteste, Como serpente nos olhares de amante, Antes que noite profunda se manifeste.
Assim, na milonga e na “cordeona”, Na lua e na estrela que reluz, Sigo a trilha da vida na jornada longa, Cantando, sonhando, na noite que seduz. E na solidão, encontro a gaita chorona, Nas notas que ecoam ao sabor da luz.
Na minha mente, a música persiste, Como um farol repleto de paixões, A “cordeona” fiel amiga e triste, Segue tocando melodiosas canções. Os ventos cantam o amor que resiste… O uivo felino na cumeeira dos galpões.
Nas noites em redomona, Somem claves em céu profundo, O escuro do panorama ocasiona, Sonatas de um violão moribundo, E com a milonga numa “cordeona”, Viajo pelas agruras do mundo.