O Lado Oposto do Verso
Trago a cor de meu olhar cinzento, Num caminho de poeira e estio, Enfrento devaneios de chuvas e ventos, Reacendo os braseiros de fogo vazio.
Trago contos de um tempo de chumbo, E marcas na face do fio da navalha, Escrevo versos que varam o mundo, Decifro letras que a mente restaura.
Traços soltos e livres em papel brando, Versos nas cálidas torrentes de tinta, Linhas certas em preto e branco, Alvejando formas que são distintas.
Simples melodias, aromatiza rimas, Notas lânguidas que são poemas, Palavras vastas de triste sina, E fascinam estrofes em cantilenas.
No rastro da rima fria e incerta, Cavalgada de sonidos mundanos, A pena vacila num sinal de alerta, Na trilha insana na Pampa dos anos.
Nos quadrantes da folha em branco, Risco textos suaves e me disperso, Na borda extrema do limite encanto, Repouso no lado oposto do verso.
O lastro longo da breve escrita, Nos acordes da clausura do poema, A poesia cambaleia, salta e levita, No vasto campo branco da cena.
No rastro das rimas, meu canto, Dissona de versos suaves e comuns, A vida, por vezes, traz o pranto, Canto sem notas… sem verso algum.
Penas que descrevem este regato, Firmes ou trêmulas nas paralelas, Assim padecem em desacato, E pintam sonetos com aquarelas.
O grafite verga o sideral espaço, Solução da face diante do espelho, Ferve o retângulo na ponta do aço, Expressão caliente do risco vermelho.
Ausculto a ranhura singela do traço, E clareia o doce verso dos meios, Desliza na espalda impressão do abraço, Dos olhares saudosos de mel e devaneios.
Serenamente na mente, um segredo! Dos versos presos na planura remota, Fogem das penas e por entre os dedos, E ganham vida as palavras mortas.
Corrijo a métrica num mar de letras, Meço em vão um verso em metro, Extraio estrofes de uma pipeta, Ouso a química de um poema certo.
Pressinto estrofes em rara harmonia, E versos quadrados que causam efeito, O excesso da rima extrai mais-valia, No poema quebrado revejo conceito.
Pressinto a rima no verso padrão, Que cai na vala comum do meu teclado, Lapido a estrofe na linha de mão, E fecho o poema no fio do aramado.