Último Trem da Estação Santa Maria
Não tem o apito na ponte, nem a máquina e o carvão, o exílio da gare da Viação, alarga o longo horizonte. A história num desmonte, no adeus do maquinista. As lembranças do foguista, e o aceno do guarda-freio. Foi-se o derradeiro esteio, nos trilhos a saudade palpita.
Sonha triste lá na praça, o nostálgico ferrinho, Lá na Saldanha Marinho, Desalento é uma mordaça. A memória descompassa. Pulsam cidreiras nas ferrovias, Outros tempos... outros dias... Um trem varava o pampa, Onde o sentimento acampa, Na estação Santa Maria.
Ouve os mesmos ruídos, Do trem que foi... não voltou. Relembra o que passou, Com o pensamento adelante, Lento andejar claudicante, Porque o tempo não perdoa, Na Boca do Monte ecoa, A distância do passado, Segue o ferrinho calado, Assobiando... una coplita à toa.
No martelo do outono, Cansado de tanta lida, Folheia o álbum da vida, A mão rude de abandono. O velho perde o sono, Verte a lágrima do ancião, O maquinista solidão, – Um espelho que estilhaça – Pois a Maria-Fumaça, Foi embora da estação.
Nos pontilhões da vida, O trem sumiu no vão do tempo, Os trilhos em alinhamento, Em cada estação perdida, A locomotiva esbaforida, Saudando a várzea enluarada, Pois entre a partida e a chegada, O aceno de um lenço branco, Passageiro dos desencantos, No alvorecer da madrugada.
Foram sumindo os alaridos, No embarque dos viajantes, No adeus emocionante, De quem havia partido, Um breve olhar comovido, As mãos que rogam amém, Traz as lembranças também, Olhos tristonhos de vastidão, Some o derradeiro vagão, Quando partiu o último trem.