O Duelo
A poesia declarava sua guerra, Mas o poeta decidiu falar de paz. Ela queria toda dor da despedida; Do abismo fundo de um adeus, um nunca mais.
Ele, no entanto, versejou os seus amores. Pras linhas nuas buscou asas, buscou cores E no silêncio de um espelho desdobrado, Falou de sonhos e sapatos de cristais.
A rebeldia fez morada nesses versos E a pena inquieta começou a enlouquecer, Pois a poesia era sangrada de tristeza, Mas o poeta se negava a descrever.
Eles então desafiaram um ao outro Em um duelo com espadas de palavras. A poesia se feria pouco a pouco, Enquanto a alma do escritor se abria em chagas.
Se foi a noite, a manhã, se veio a tarde E o duelo não findava por si só. Os olhos turvos do poeta transbordavam E a poesia, dela mesma tinha dó.
Quando o tinteiro derramou seu sangue nobre Pelo cenário de uma folha já rasgada... De um lado o poeta, divagando quase morto, Do outro um sonho e uma poesia retalhada.
É assim a luta de quem faz, do verso, a vida Pelos caminhos tão eternos e tão breves! A alma cinza, de repente, é colorida E a poesia está no homem que a escreve...
É uma batalha interior que nos consome: Gente e poema num só corpo, permanentes... Quando a poesia sente frio ou sente fome, Dói no poeta que nem sabe do que sente!
São dois destinos paralelos: alma e verso; Prismas distintos numa mesma dimensão... Signos, enigmas tanto quanto controversos; Em sintonia com o bater do coração...
Vão duelando vida afora... Morte adentro! Mas muitas vezes se protegem dos demais... São mesmo sangue, mesmo sonho e sentimento Que, às vezes, trilham por caminhos desiguais...
Paz belicosa e harmonia sanguinária, Dualidades indivisas em um só! São, a poesia e o poeta, uma e são várias Estradas longas com o feitio do mesmo pó!
Algo de humano está no verso, certamente... Homem é livro que saiu, recém, do prelo! Por isso, o poeta e a poesia, eternamente Vivem no fogo do romance e do duelo!