Quando o Verso Ganha Asas
De tanto beber poesia nos mates das madrugadas Observando as estrelas perdidas na imensidão... Ao assoviar ternas coplas em contraponto c’os grilos Sorvendo luas no açude em noites de solidão...
A alma busca guarida na quietude do silêncio Pra comungar com fantasmas que povoam a consciência A inspiração companheira se acomoda junto ao fogo Pra soprar brasas antigas e reavivar a essência
As fagulhas do angico são pirilampos dançando Ou são estrelas cadentes buscando abrigo no chão Chia a cambona do mate junto à trempe do borralho E o fogo tremeluzente faz lume pra escuridão
Os olhos são como sóis que se acendem junto à alma E são janelas pro mundo ou portas pro coração Não esmaece o seu brilho na fumaça que judia E faz jorrar a vertente que inunda a inspiração
Minhas retinas vislumbram lampejos de um tempo antigo Sagas que o tempo marcou na história com ferro em brasa E busco reminiscências que aguçam velhas lembranças Que renascem nas palavras quando os versos ganham asas
Ouço vozes ancestrais trazendo antigos responsos E uma música ao longe ecoa como um clarim Palavras são corredeiras que disparam mente a fora São versos adormecidos que brotam dentro de mim
O tempo paira no espaço abrindo cancha pro verso E busca compor a estrada pra recompor a memória Palavras são como aves revoando no pensamento Trazendo antigos legados e revelando a história
Sinto o tropel de mil potros corcoveando junto ao peito Quando as patas são tambores ritmando as melodias O meu verso calça esporas galopando campo adentro E se larga mundo a fora engolindo as sesmarias
A inspiração solta as rédeas gineteando nos fonemas E as nazarenas cadentes cruzam o céu no infinito Os versos rompem silêncios pelas lágrimas da pena E a poesia não sustenta sufocar o próprio grito
Seriam brados amorfos mofando na folha fria? Quem sabe verbos inertes no escaninho das dores... São sentimentos de alma aprisionados no tempo Que, alados, ganham sentido na voz dos recitadores
Então, palavras são brasas queimando os porões da alma Não cabem mais sufocadas numa folha de papel Os versos rompem grilhões e voam nas vozes loucas São pássaros já libertos que abrem asas rumo ao céu!