De Algum Trançador de Sonhos
Fiz um laço com meus sonhos medindo umas oito braças. Trança bem feita, com raça, vontade, firmeza e ações. Pra laçar aspirações ao longo de minha andança encilhei égua madrinha de nome nobre: Esperança.
Cada bater do cincerro, pujante e com confiança, no rastro da Esperança punha potros de ideal, armei laço como um tal e apinchei mui esperto, porque a armada de sonhos já tinha destino certo.
“La pucha”, foi de encomenda, uma armada de vaqueano, mas um momento tirano de vereda me marcou; laço sonho arrebentou não aguentando os laçassos e o potro Ideal se foi deixando o sonho em pedaços.
Recolhi o que sobrou e com tentos de persistência emendei com paciência meu apetrecho de lida. Sonho é adubo pra vida, é um combustível geral e sem ele é impossível se pealar o ideal.
Fui de novo tentar sorte, eu e meu laço parceiro, e o Ideal altaneiro refugava no piquete: -Oigalê, que lindo flête pena ser tão xucro e arisco, me vendo ganhou arame não deixando nem o risco. Gritei: - Que se vá sotreta e se crie longe de mim, porque hoje ponho fim nesta ingrata campereada, não quero Ideal, nem nada que me cause ilusão, pois sofrenei pensamentos e enfrenei meu coração.
Pra que um laço de sonhos, firmeza, ações e vontade se o tranco da realidade arrebenta qualquer tento. Sonhos, soltei aos ventos, que caiam em qualquer lugar e germinem noutros campos bem longe de onde eu passar.
Desencilhei a Esperança, minha égua de campereada, e no fundo da invernada seu cincerro pendurei, alguém tomou conta, eu sei, com certeza foi a vida, pois nos tempos de agonia eu escuto sua batida.
Um dia, escaramuçando no piquete da existência, Ideal veio com tenência, mais forte que de outrora e eu ao vê-lo lá fora rebrotei em minha ânsia, mas sem meu laço de sonhos perdi o Ideal na distância.
Senti um aperto no peito e lágrimas eu verti, na hora então compreendi o viver e sua grandeza: Mais triste que a tristeza de um ideal não pealar é o vazio de não ter nenhum sonho pra trançar.