João Craúno
João Craúno nasceu pobre, desgarrado e teatino. Veio conforme o destino inventou de lhe mandar. Na tesoura de tosquiar foi moldado ao modo antigo e entre ferrugem e sangue cortaram o seu umbigo.
Não teve berço, cuidados, nem carinho e achegos, dormia sobre os pelegos tapado só com o xergão. Cresceu guri pé no chão brincando em tropa de osso e no cabo da enxada a infância rendeu-se ao moço.
Era sozinho na vida, não conheceu nem os seus, sempre ouviu falar em Deus e na infinita bondade, mas não sabia a ansiedade que em seu peito fez morada nem porque Deus dava muito e pra ele nunca deu nada
Não tinha crença nenhuma, só no suor de seu rosto, cevava o amargo desgosto de nascer já rejeitado, e no braço do arado tinha um sonho a realizar: ter a sua própria terra e pra si poder plantar.
Mas pra um peão não era fácil em patrão se transformar, pois muito era o trabalhar e pouco o pagamento. Seu omisso sentimento lhe cobrava a ação de dar um chega a miséria, um basta a exploração. Ouviu falar que o Justino, como ele um empregado, foi-se embora pro povoado e “mui bien” se deu por lá, pensou então em “troteá” e o cavalo logo ferra: Ganho uns cobre na cidade depois compro “minhas terra”.
Arrumou tudo que tinha para partir sem demora: Um rebenque, um par de espora, a canha faltando um terço, o pelego que foi berço e na vida companheiro, sua mala de garupa e parte a trote chasqueiro.
Com a esperança a cabresto e na garupa a vontade, se adentrou na tal cidade de manso, pitando um baio, mas olhares de soslaio lhe dirigiam trancucho pois ali o modernismo eliminou o gaúcho.
Sentiu, não era no más a nova vida começar, ninguém queria empregar um grosso, um agricultor, cidade não dá valor pra pouco conhecimento e é impossível plantar aonde só há cimento.
Começou a viver de changa trabalhando por comida e os sofrenaços da vida lhe mandando ir embora. Mas o que fazer agora lhe cobrava a realidade: ser explorado no campo ou marginal na cidade? Chorou lembrando da vida que levava até ali. desde piá, de guri a sorte o contrariou, e quando um sonhe criou tentando se realizar o destino na paleta a espora lhe quis cravar.
Voltou pra terra de onde jamais devia ter saído, o peito em sulcos, ferido, a face triste, enrugada, sem esperança em nada fez valer o sacrifício: é ruim ser explorado mas pior é não ter ofício.
Reencontrou-se co’a enxada que a tempos tinha largado, viu de novo o arado de sol a sol companheiro, viu terra, sentiu o cheiro do campo que ele plantou e no verde que enxergava sua vida rebrotou.
Passou a viver como antes: semeando, colhendo dor e o sonho de agricultor em vida nunca brotou. porém quando o fim chegou dando fim a sua guerra o sonhe realizou-se em 7 palmos de terra.