Sina de um Tropeiro
Passo a passo cuidadoso emalou os seus arreios: bucal, peiteira, o freio, carona, basto e pelego. O arrelhador por apego segurou em sua mão enquanto apertava tudo com o látego do cinchão.
Pai, larga logo esta vida “bamo” embora pra cidade, tu não tem necessidade nem condições pra ficar. Vamos, eu vim te buscar, te agasalhar no meu teto, te esperam ansiosos a tua nora e teu neto.
Olhou firme no horizonte como enxergando uma vida, ou quem sabe a despedida entre terra e peão. Tropeiro por profissão, Serrano de nascimento viu a velhice e o cansaço lhe tirarem o sustento.
Se foi pra dentro”das casa” pegou o chapéu, a mala: pro frio vou levar meu pala, minhas botas e meu lenço. Cidade é dura e já penso não vou me acostumar, mas juro, nada me impede de pro campo retornar.
Embarcou na camionete, quieto, em silêncio, calado, e o coração apertado era potro em disparada. A tropa berra abombada e ele quieto, calado, sentiu camperear as lágrimas naquele rosto enrugado.
Passou toda a viagem em nada atenção prestando: - Pai, já estamos chegando seja bem-vindo a cidade, sei que é contra tua vontade mas tenta te acostumar, trabalhaste a vida inteira agora tens que descansar.
Subiu pro apartamento embretado no elevador: - Filho, não guarde rancor mas a este velho entenda, eu longe lá da fazenda por mais que tenha carinho sou ovelha em meio ao sorro, sou um pássaro sem ninho.
Foi camperear pelas ruas sem ter paradeiro certo, não tinha gado por perto, brete, pastagem, balança, somente a esperança, não havendo melhor sorte ir tropear gado de sonhos no lombo duro da morte.
Só via tropas de lata em corredores de asfalto, buzinas, roncos bem alto vibravam fundo na alma, e antes de perder a calma com os fatos do dia-a-dia no semblante de seu neto esqueceu tudo que via.
Teve sua infância humilde passando diante de si, de quando era um guri de bombacha remangada, sem a preocupação de nada sem mágoas no coração, e seu mundo era os brinquedos e o petiço alazão.
Lembrou do banho de sanga, Da funda de laranjeira, das apostas na carreira: - dou doble e luz para o baio. Dos olhares de soslaio pra menina apaixonada e a escramuça no cavalo encantava a namorada.
Lembrou das lides gaúchas: Banho, dose, marcação. Da doma: tombo no chão até deixar de ter medo. Da ordenha feita bem cedo seguida da reculuta, depois do almoço a sesteada saboreando alguma fruta.
- Pai, Pai, te atina. O que é isso, anda sonhando acordado, pensativo ai parado até parece um tumbeiro. Onde está aquele tropeiro de pé com a madrugada, que entre trabalho e causo nunca parava, por nada.
Ah Pai, o que é que eu faço, tua vida aqui empaca, touro em campo alheio é vaca assim nos diz o ditado. Pega as coisas num riscado, não adianta, é teu destino, pois quem nasceu pra tropeiro nunca será citadino.