Louco de Atar
Eu sou louco de atar e tenho dito! Sou louco de pitar papel carbono... Amarrar cachorro com linguiça E achar que esta terra ainda tem dono.
Eu sou louco de atar porque revoo... Ser Ícaro sem tombo é pra quem pode! E mesmo voando alto não enjoo, De cima desta minha barba de bode.
Sou louco de atar, pois vejo coisas Que pelo mundo certo ninguém vê; Visagens de um poeta alucinado Viajando nas paisagens que ele crê.
Sou louco de atar, pois vejo fome Em frente a mil banquetes de fartura; Semblantes guaranis pelas calçadas Vendendo seus balaios de amargura.
Eu vejo tantos povos, tantas gentes, Tenteando a vida, recortando o mar... Eu vejo a luz da infância se afogar Aos pés dos que lhe são indiferentes.
Eu juro até que vi homens graúdos Botando a mão no bolso da miséria; E líderes sem forma e conteúdo Tentando convencer que a pátria é séria.
Vi gente já soldada no seu trono De tanto distribuir falsas promessas... E velhos atirados no abandono, Enquanto o povo passa, pois tem pressa.
Eu vejo que a justiça é cega e surda Enquanto homens brincam com suas togas; Um tempo de vaidades absurdas Num mundo sem estrelas e pandorgas.
Eu fico admirado e surpreendido Porque percebo que são só visagens; Delírios deste louco pervertido Que vive inventando essas imagens No breu de um pensamento mal parido.
Imaginem só que eu vi pastores Vendendo o paraíso por patacas; Usando a boa-fé das almas pobres Pra adquirir mansões e encher guaiacas.
Eu vi tocarem fogo em CTG E uns acharem lindo e coerente; Despejando seu ódio na TV, Por medo de aceitar o diferente.
De onde que a mulher ia sofrer? De onde que o racismo ia existir? São coisas que por falsas ninguém vê Mas eu, completo insano, sempre vi.
Depois de tantos anos pela estrada Bebendo essa loucura rotineira, Troquei o meu escudo e minha espada Por camisa de força e focinheira.
Senão faço sermão, rasgo dinheiro, E toco fogo em cada falso altar... Boto a boca no trombone o dia inteiro E intimo a gente certa pra enxergar.
Perturbo a paz, o bem, transgrido a ordem, Sou inimigo público proscrito; Perdoem o meu jeito meio tosco, É que eu sou completamente louco... Eu sou louco de atar... e tenho dito!!!