Paixão e Pedra
A paixão é rio fecundo, a pedra parece estéril, A paixão zomba do mundo, esquece que o mundo é sério. A pedra segue calada, inerte, mas imponente, Colocando em xeque-mate o que vale a alma da gente.
A pedra é o cio das pedradas que a gente leva da vida, A paixão desenfreada é uma pedrada dorida; Mas quando paixão e pedra se comungam num só ser A alma sente a pedrada da paixão ao florescer.
E o coração incandesce, e os ideais viram brasa Trazendo alento pra um sonho que dormiu fora de casa; Talvez a pedra derreta frente ao fogo da paixão, Mas logo após ressuscita quando os frios tomam o chão.
A paixão verte da terra, é terra em alma elevada, A pedra é a terra do tempo, é a paixão petrificada; A pedra bombeia inerte o fio do tempo cortar E a paixão se diverte cortando o tempo no ar!!!
Levei pedrada na cara nestes dias mal paridos, Plantando estranhas searas com meus sonhos divididos; Pois a pedra e a paixão se confundiram nos ventos Semeando essa confusão no campo dos pensamentos.
Tantas paixões tão intensas, tantas sanhas disfarçadas, Se fundem às brumas densas que firmaram suas pegadas; As paixões viraram pedras, jogadas em catapultas Que atacaram as taperas das minhas chagas ocultas.
Eu tenho paixão de pedra, pois é forte e resistente Persiste firme no chão, com anseios de semente; Mas quando as sagas do mundo a jogam pra mais além, Ela carrega meus sonhos, pechando os sonhos de alguém.
Eu sei bem que as pedras quebram, mas minha paixão não trinca, Gira o mundo e se reergue em cada alma que brinca; Defende as minhas bandeiras, empunha as minhas adagas, E faz da história inteira parceira pras novas sagas.
Ainda há pouco ouvi um grito, meio cego, meio mouco, Que retumbou sem estrelas do desencanto mais rouco; Um grito que deveria queimar o sangue e os ossos, E renegar as maneias de um sonho que era nosso.
Esse grito foi calado já no seu primeiro grão, Pois hoje os homens têm medo de ser pedra e ter paixão; Ficou meu peito rangendo, qual porteira abandonada, Rezingando os desalentos de uma terra devastada.
A moça dos olhos lindos que morava logo ali Sem pensar ganhou a estrada procurando o que não vi; Sem ela meu poncho negro, sem paixão, virou mortalha, E as armas enferrujaram, já sem fome de batalhas.
E agora paixão e pedra? E agora pedra e paixão? Será que um resto de sonho ainda pede perdão? A paixão virou retalhos, já não vive por si só, E a pedra, que era eterna, sem ter paixão, virou pó?
Mas minha paixão resiste, a alma desassossega, E seguem sempre luzindo, quebrando o queixo das trevas; Eu voo sempre mais alto, não tenho medo da queda, Me firmo na eternidade de ter paixão e ser pedra!!