Toda Gente que Eu Conheço...
Hoje eu descobri uma coisa E vou lhes dizer o que é... Toda gente que eu conheço Tem cinco dedos em cada pé.
Tem cinco dedos o padre e também o marginal... Quem “veve” no interior, quem vive na capital. Tem cinco dedos o guarda, cinco dedos o ladrão, Também o juiz da Comarca que dita a condenação.
Tem cinco dedos em cada pé quem finge que é mas não é... Também quem pinta a verdade na tela imensa da fé; O falso, o dissimulado, também os homens de bem, No pé da Gisele Bündchen são cinco dedos que tem.
É matemática certa, pra homem e pra mulher, Foi Deus quem fez essa conta, ninguém meteu a colher; São cinco no pé do bom, são cinco no pé do mau... Assim é o pé do Pelé e até do perna-de-pau.
Tem cinco dedos graúdos quem vive cheio dos cobres Desprezando os cinco dedos do pé magrinho do pobre; Tem pés que guardam seus dedos em chinelos vagabundos E outros em finas botas, dos couros nobres do mundo.
Os cinco dedos cansados do pé que a velha carrega Criam passos arrastados de alguém que nunca se entrega; Os cinco dedos mimosos do pé da moça faceira Atiçam chamas e sonhos do moço pra vida inteira.
Também são cinco os dedos do pé descalço nas ruas, Da criança abandonada nos braços da perdição; A fumaça e a desgraça de eternas noites sem lua... Um coração sem futuro num tempo sem coração.
Hoje eu descobri uma coisa E vou lhes dizer o que é... Toda gente que eu conheço Tem cinco dedos em cada pé.
Cinco dedos sim senhor, nos pés humanos do mundo Com pouquíssima exceção; Seja na luz ou na treva, desde os pezinhos da Eva E os pés primeiros do Adão. Cinco dedos sim senhor, nos pés humanos do mundo E também deste rincão.
Cinco dedos que se estampam em cada pé que este pampa Gerou na sua formação... Em cada pé que mostrava que cinco dedos bastavam Pras sagas da evolução. Em cada pé que seguia, pintando na geografia, Cavalos, bois e carretas... Os pés pisaram relentos até que os dedos do tempo Virassem suas ampulhetas!
Os pés que movem montanhas no decorrer dessas eras Tem dedos na mesma conta dos soterrados por elas. Nas cavernas, nas cruzadas, nas peleias mais ferozes Em cada pé cinco dedos, entre vencidos e algozes!
Cada pé de além oceano, com cinco dedos também, Pisou grandes caravelas na gana de andar além; Encravou seus cinco dedos de conquista e de desdém Como se a terra do índio fosse terra de ninguém.
Cada pé com cinco dedos nas botas garrão-de-potro, Faz parte da nossa história de um jeito revelador; O pé de um homem inquieto com cinco dedos no chão Espera os passos pesados do pé do degolador!
Será que os pés distorcidos e tortos dos ditadores, Que pisaram esta terra com cinco dedos mortais; Se deram conta um momento, que na base e no sustento, Nos dedos e nos direitos os homens nascem iguais?
Hoje eu descobri uma coisa E vou lhes dizer o que é... Toda gente que eu conheço Tem cinco dedos em cada pé.
Tem cinco dedos o pé do velhinho moribundo... Mesma conta do piazinho que recém chegou ao mundo; São cinco dedos que vem, são cinco dedos que vão E assim segue a humanidade geração a geração.
Talvez os seres humanos, por suas vitórias e planos Pareçam tão diferentes; Suas conquistas e sonhos, suas línguas e culturas Seus ideais e sementes; Porém as contas não mentem, não interessa o enredo; É simples e independente de forma e de conteúdo...
Cada pé tem cinco dedos e o pé é a base de tudo!