O Abraço da Saudade
O abraço da saudade tanto fere quanto afaga. É corte lento de adaga de prata, com fio de seda. Arde em sua labareda quando acende a paixão, mas conforta o coração quando pulsa na lembrança. Beija o rosto da esperança no espelho da solidão.
Envolve a noite fria em um duelo medonho... Visita a casa do sonho, povoa a vida vazia. A saudade é poesia, sangra nas linhas do tema e inunda o poema de pranto e de lamento. A saudade é o tormento do poeta e sua pena.
O abraço da saudade, entre juras de amor, fere a pétala da flor, sussurra ao pé do ouvido. Punhal de duplo sentido, ferindo a carne da gente, cicatriza a dor ausente à sombra de algum carinho. Chega bem devagarinho e se instala, de repente.
É laço que não se vê, e aperta mais na distância... Na armada de sua ânsia, enlaça dor e querer. Saudade é entardecer, melancólico poente... O amor, enquanto ausente, sem lume, sem arrebol, clama pela luz do sol na janela do horizonte.
O abraço da saudade é uma ilusão sombria, é luz que não alumia e finge ser claridade. O abraço da saudade acalenta as ausências e empresta voz ao silêncio. Se aquece no mesmo poncho, vem morar no mesmo rancho, disfarçado de presença.
Coração em descompasso, implorando piedade e o abraço da saudade, enfim, estende os braços... O calor de seu abraço aquece as longitudes e aplaca as inquietudes. Saudade é amor em trauma debaixo das águas calmas do espelho dos açudes.
Desde quando tu partiste, eu abraço a tua ausência, invoco a tua presença, mas a solidão persiste. Vago pelas noites tristes, não há flores nos meus passos e eu desenho os teus traços em meu pensamento vago, nesta saudade que trago na ausência do teu abraço.