Flor de Morena
Se achega como candeeiro De pronto tudo se aquece E a própria vida floresce Em um reverdejo faceiro. Bombeio em teu luseiro, Com lábios cor de carmim E ferroadas de camoatim Eu sinto queimar no peito, Percebo que por seu jeito Já estou perdido de mim.
Embalam-se flores maduras É o ar que a ti se perfuma Porque não és só mais uma Por entre o céu e as planuras Vejo em tuas melenas escuras Os antigos portais de magia O pala negro que eu queria Tecido por mãos de Deus, Que fez os cabelos teus Quando inventou a poesia.
E em teu sorriso de largo O verbo amar se conjuga, Não tenho chance de fuga Nem mesmo cabe embargo Meu peito de índio amargo Por golpes que a vida deu Para adoçar-se escolheu A ilusão que vou seguindo Um dia estarás dormindo O mesmo sonho que eu.
Só a tua presença embriaga Bem mais que aguardente, Porque contigo um vivente Sente uma áurea que afaga E quantas peleias de adaga Por uma migalha de olhar Que tu deixaste escapar Revigorando um peito gasto Pra ao menos lamber o pasto Que mata a fome de amar.
Se o meu lenço encarnasse Resquícios do teu perfume, Só para assanhar o ciúme, Em cada rosa que nos nasce Por certo até tu enredasse Todos jardins da querência Porque trazes nessa essência Os aromas xucros nas ventas Que chega soprar tormentas Pelos peraus da existência.
Quanto cuera cabresteado Na soga dos teus encantos Fazendo promessas a Santos Ajustando mandinga, amarrado, Decerto ao brincar descuidado Nos mananciais de tua retina Guardando tenência com china Por peito banhado em mágoa Afogou-se nos olhos d’água Que ainda tens de menina
Tenho pra mim que teu beijo Tem o gosto do que me falta Porque uma gana me salta Em cada vez que eu te vejo Encordoando medo e desejo Por teus mistérios sem fim Meu rancho, barro e capim, Queria a beleza que “tu leva” Para respingar em cada ceva Dos mates feitos pra mim.
O tempo por mais ventena Perdura tua estampa bela Escancaras qualquer cancela Por mulher gaúcha, morena Se fosses diluir minha pena Na noite em alta invernia, Teu corpo meu pago seria, E o homem virava piazito Perdido a andejar “solito” Dez quadras de sesmaria.
De tudo não compreendemos A essência que há numa vida Como tu podes ser entendida Se dentro de ti que nascemos? Decerto os planos supremos Insondáveis como o destino Pelas mãos do próprio Divino Ao falquejar-te em seus dedos Deixou impresso os segredos Em um arremate mais fino.
E se uma lágrima em saudade Envergar-lhe as covas do rosto Tempero amargo em seu gosto, Contrapondo sonho e verdade, Eu reparto contigo em metade A toda a angústia que se vier E esse verso é teu se quiser Para ser teu fiador na jornada Por essa tropilha estourada Chamada emoção de mulher
Trago minha alma rengueada Dos frios de um peito tapera E venho a tentear primavera Por longos invernos de geada, Me toca lhe ter enamorada, Nunca fui peão de camangas Mas entre o mate e as changas Eu penso e peso meus planos Que jamais poderiam oceanos Correrem direito, as sangas.
Mas de si mesma tu és dona Jamais lhe cabe uma amarra E assim como não se agarra O som da própria cordeona Do pago és a flor redomona Nos campos liberta e serena Mas, que de pronto envenena, A quem lhe tomar por beleza Tu és a nossa mãe natureza Vestida em flor de morena.