De Origem, Rumo e Destino
Venho de tempos recuados, Sotaque rural na fala; Brilho de graxa no apero Num trotesito que embala E um jeito de andar solito Gastando as franjas do pala.
Nasci num ermo pampeano Um pouco antes do dia, Na madrugada campeira A estrela guia luzia E ao som de cantos cardeais Mais um crioulo nascia.
Mas, a brisa, que soprava Com aromas naturais Parecia que trazia Notícias de algo mais; Pressentia que nascia Um cantorsitonomais.
E, por isso, desde então Me acolherei ao meu verso, Humilde sopro de campo Pelo que sei e converso, Pequenino em rimas pobres Na amplidão do universo.
Gastei cordas de guitarra Cantando por toda a parte, Sei que o meu canto é humilde E mesmo assim se reparte; Andejo plantando rastros Nessa odisséia da arte.
E assim vou rumo e destino Gastando esporas e o pala, Meu verso fala por mim E por mim que não se cala Pois diz daquilo que trago Entre amassados na mala.
Ouvi o canto das grotas Em sublimes melodias, São colos da natureza Dando vida às sesmarias E os cheiros do campo em flor Em rimas co’as lejanias.
As saparias vibrantes, Concerto e sarau em coro... E o eco no campo aberto Expande um berro-de-touro Acordando as invernadas Que dormem nos paradouros.
Nuvens singrando o espaço Iguais a mim, andarilhas Apeiam sobre as lagunas Deitadas sobre as coxilhas Com as bordas enfeitadas De pastiçais e flechilhas.
Engarupei na memória Tantos momentos vividos Quantas cordeonas e chinas Musicaram meus sentidos De andejo e sonhador Por estes rincões perdidos.
Pelos atalhos que andei Deixei pedaços de mim Nos amores extraviados Por horizontes sem fim E as alegrias que eu tinha Perdi e fiquei assim.
Sob as abas da carona Um patrimônio guardado, No couro do tirador Testemunhas do passado E nas argolas dos loros Dois estrivos desgastados.
No sol-a-sol do destino O andejo aprende a ter calma; O tempo groseando a vida E a vida assiste sem palmas; E a ossamenta dos sonhos Branqueia o campo da alma.
Feições de noite e luar Jeito de cerro e de grota E um semblante de outono Que facilmente se nota; Me enraizei na querência Com pés descalços e botas.
Nestas lonjuras de campos, Horizontes infinitos, A vida rumo à ilhapa Com o seu tempo restrito... Mesmo depois, no silêncio, Há de voltar com seu grito.
E a magia da coscoja Se une ao canto das rãs, Quantas vozes nestes campos E tantas mensagens sãs... Resistindo a um tempo novo Para salvar amanhãs.