Um Quixote no Sul
Um elmo de feltro: Pralana desbotado, Encanoado nas abas. Desgastado dos anos, Mas dum preto tingido Na insígnia da cor.
Um par de rosetas, Espinhos pras chagas No lombo das feras. Gêmeas de prata; Resquício de sangue, Na ferrugem do tempo. Espelhos de lua Num par de esporas.
Um escudo de lã, Pros jogos do osso, Nas lutas por honra, Um poncho no braço, Embrulhando a defesa! Ao invés de uma lança, De agudeza vilã, Um laço armado, Pra o tombo certeiro...
Uma adaga em flor Nas pétalas do golpe, Com gume folhado. -Manuseio de esgrima, Num cabo artesanal! Uma faca luzente Que os olhos ladinos, Se abrasam tremendo Com medo à porta Na casa da alma.
As botas de fole, Pra o adorno da perna, Num couro grosseiro; Servil aos galopes E suster pé no estribo, Trompando perigos Que a estrada revela!
Um Rocinante ventena, Marcando no rubro do solo Um quarteto de luas; Risonhas minguantes Pelo formato do aço, tatuagem no molde De grossas ferraduras. Um garboso troteio E a pelagem de brilho, No transparecer da raça!
E Dulcinéia? A flor da janela, Que mata anseios Filtrando esperas Na insônia dos mates Que mora nos vícios, De tempos e luas! Uma gota de sal Rasga-lhe o rosto! Uma renda bordada Por dedos sangrados, Dos cabeceios agudos De um alfinete lanceiro Pelo descuido da moça, Distrai o vazio que lateja.
Um repertório de idéias Habita a cabeça do louco...
Enquanto sua Dulcinéia, Angustia-se de si, E engole o silêncio encruado, Calando-se sempre, aos poucos.
Pois o Quixote galhardo, Da poeira das folhas Nos confins dum romance De velhas cavalarias, Brota em pleno pago, No ermo de um grotão, Entre as fronteiras do nada E a geografia do impossível.
Um pingente esvoaça Das retinas lacrimantes...
Sorrindo pra que nem mesmo note, Que não passa de um Quixote, Um andante doidivana, Peregrino, lenço rubro, Pelas veredas do delírio.
O tempo em pergaminhos, Inscreve as pegadas batidas; Ao pelear com moinhos Por suas causas perdidas!
Por dragões aéreos, Sem matérias,tão fluidos, Na fantasia em que bebe, Surtou além-portais Que a própria mente concebe.
Por isso vislumbra, Em meio a penumbra Que engole a tarde: Um monstro na feita Que espreita silhuetas Sombras cansadas Em que a loucura invade...
E avança... Combate às avessas As projeções sensíveis Que cria na caverna Do subconsciente.
Um herói vencido, Um lendário, um gaudério. Um Quixote revisitado, Num rompante da alma, Em seus impropérios!
Por fiel, um campeiro, Um escudeiro de fato! Tal Sancho da Ibéria, Nas desventuras do acaso De um Dom desconcertante. É o novo feito do antes, Pelas mãos de Cervantes, Vingando no sul.
Investidas fajutas Contra feras de papel! Uma ilusão que prega, E se pega em seu mundéu.... E a língua do sol Em tom crepuscular Lambe o corpo do campo, Excitando os pelos da relva, Que se estimulam ao vento E se umedecem de garoa!
E lá vão dois viventes! No lombo das bestas-potros, Pura semelhança com os outros Das estantes do antiquário, Nos relicários das livrarias.
E num relance, de longe, Na ranhura do tempo Que agride o silêncio: Uma orquestra de patas, Ressona em contraste A vencer pegadas, Quando a tarde se tomba...
E lá se vão dois delirantes; As sementes de Cervantes, Uns doidos ambulantes, Feito centauros na sombra!