Meu Verso de Olhar Antigo
Larguei meus pingos de muda no canhadão do repecho... ...dois tordilhos e um - lobuno- este que me deu serviço pra deixar leve da boca... ...os outros dois sem costeio, concordados pra uma pega se curtiram na refrega de um aparte de rodeio.
E junto deles... ...e junto deles meus sonhos também larguei campo a fora... -matreiros sonhos alçados que gambetearam meus passos ao passo que andei distante perdendo meu próprio rastro. ...por isso que nesta hora, quando me quedo vagando nos interiores da alma, fecho olhos e me alço rumo aos confins de mim mesmo, rondando velhos recuerdos que se extraviaram no espaço.
Busco a alça da cambona, que a pouco empeçou seu canto vaporizando seu pranto que se mescla com a fumaça de um braseiro coloriando por uma réstia de vento soprado quase em caricia da fresta larga do oitão.
E engordo o gosto do mate que viro e encilho de novo pois junto com ele eu renovo também a minha saudade... Ah...! esta saudade vaqueana... ... que bastereia meus dias pisando o lombo das horas... ...miro o basto pendurado, o manguinho retovado e o lacito enrodilhado sobre um resto de espora.
E lá encontro estrivado, entonado nos arreios, um guri cheio de anseios e com lonjuras no olhar... ...de chapeuzito tapeado, tirador acolherado e um palita atravessado para o lado de montar...
Este guri que cresceu no meio da peonada, se moldou nas campereadas de domas e marcação... Sempre pronto pro ajutório, golpeando queixos de potros, amadurou na forquilha no lombo de um redomão.
E se fez homem com as tropas, sovando o couro das botas no puleiro dos estrivos... ...botou ciência e tutano, com a lida ao passar dos anos. E compreendendeu aos pouquitos o valor de um tento forte pois, pra o campo quem gineteia, só esperança não basta e pra um malo que se aplasta é pouco contar com a sorte. Por tudo isso é que insisto em ruminar coplas antigas silenciadas na cordeona, donde as notas de seu ventre a tempos abortam cantigas emudecidas no fole... ...e outro e mais outro gole... ...o amargo, amarga lembranças que nas reentrâncias da alma se despojam serenadas.
Mariposeia uma ânsia pelos confins de mim mesmo... como se abrisse no peito, uma verga que se afunda no âmago de minhas dores... ...a tempos que meu sorriso, alforriou todo seu brilho dos descampados da boca, e segue vagar a esmo talvez buscando motivos pra voltar dar vida aos lábios.
E nesta faina saudosa, onde alegria e tristeza se atam no mesmo ajojo... ...estendo um mate ao silêncio... -...meu lenitivo ritual de varar as madrugadas recorrendo as amplidões dos meus íntimos segredos. Perpasso as horas da noite, com um “grilito” dedilhando um pinho que é só seu, e que repete insistente um bordoneio profundo e entrega as dores do mundo nas mãos sapientes de Deus.
De tanto que andei distante, acreditei que a distância podia me dar de volta tudo que um dia perdi... ...que eu fosse juntando aos poucos em cada légua de estrada restolhos de um tempo moço, que fui quebra em alvoroço e que os culos do meu osso não pealaram meu sorrir...
E na redoma do tempo vi que o tempo não se doma, nem mesmo o deixa pegar... ... se alo mais - “ mancarroneia”- com um buçal de couro gordo e gargantilha em presilha, se afucinha no palanque pra uma bolada mais forte, onde é certo e derradeiro o destino de um campeiro, dar caravolta na morte.
Pra os que andam como eu tentando encontrar-se em si... ...“ressemeando” em lua nova rebrotos da mesma cova das covas que eu mesmo abri...
Pras os que andam despilchados das vaidades citadinas reajojando o tempo antigo na simples forma de ser... ...a fraterna consciência que renova a esperança quando o olhar de uma criança nos da razão pra viver...
Meu verso de olhar antigo que se adelgaça as lonjuras para apear nas planuras sem tirar o pé do estribo... Meu verso de olhar antigo que jamais olvidarei os sonhos que não domei e ainda os trago comigo...
Assim agaúcho a memória... ... o mesmo guri a cavalo de chapeuzito tapeado... ...o pala trocou de lado, e o mango na mão canhota... É ele que estende o laço na mangueira dos recuerdos... ...é ele que amansa a tropa pra lamber sal no saleiro ...é ele que quebra o cacho já na primeira “amuntada...” Este é o guri que renasce toda vez que fecho os olhos. Este guri é meu verso, que encilhou a madrugada.