Agnus Dei
I De olhar sublime no mirar do nada, doando o corpo para a oferenda, transporta a vida (morte de encomenda) ao holocausto da carne queimada!
Pelos mistérios, que a oferta desvenda nessas primícias da alma transportada, é uma outra conta para ser rezada, em triste espera que a fogueira acenda!
Então expira, em sacrifício e entrega, entre fumaças das doutrinas cegas, e a tornam ainda mais divina que ela é!
Só quando a carne se torna em oração, entendemos, pela injusta imolação, que a ovelha e dádiva, que a ovelha e fé!
I I No revestir o assento do divã com a pele macia do pelego, faz um mundo de paz e de sossego para o descanso dos mates da manhã! E doa, com seus fios e seus novelos, para mãos ágeis, campeiras e artesãs, todo o níveo aveludado de suas lãs e o seio aconchegante dos seus velos!
Parceira no rigor das invernias, nos protege do furor das ventanias com fios do bichará e do poncho amigo!
Por fontes de calor que a lã oferta, descobrimos, no ninho das cobertas, que a ovelha é lar, que a ovelha é abrigo!
III
Quando agruras da fome e do saciar vem bater sineta em nossas portas, ela abre suas cancelas e comportas, para as sinas da cadeia alimentar!
Na lâmina que vara a veia aorta, ela entrega o seu corpo e o seu olhar nessa maleva de ter que sustentar quem vier fartar em suas hóstias mortas!
Pacata e inerte, num redil fecundo, ela sustenta as bocas desse mundo na culinária profusa do fogão!
Por ser um prato para ser servido nos mostra, com seu corpo repartido, que a ovelha é carne, que a ovelha é pão!
IV Na ciência que o passado nos ensina, doando suas partilhas de gordura, o seu sebo se mescla à benzedura para uma xucra e rude medicina!
Torna-se alívio envolta em atadura na forma abagualada de morfina e assim, pelos efeitos dessa sina de sanar corpos, a ovelha é cura!
Embebida na mecha para a chama do candeeiro onde essa graxa inflama, sobreposta em um campeiro quebra-luz,
a treva parcialmente se ilumina, mostrando, na inocente lamparina, que a ovelha é vida, que a ovelha é luz!