O Retorno e o Princípio
O tempo rabiscou gris na paisagem Que o pingo amassa nas patas dessa volta...
Os palanques, ainda em pé no corredor, Dependuram-se abraçados nos arames Como esqueléticos zumbis que vagueiam á noite E que retornam cedo em direção das casas...
A porteira é a mesma... De um angico em cerne envernizado Sob uma camada de musgo e abandono, Com olhos corroídos de procuras Por um eu que vem tapado de lonjuras Cumprir uma promessa de retorno...
A casa do barreiro ainda existe Cicatrizada no lombo do moirão, Agora em ruinas, como o próprio coração De seu antigo engenheiro e construtor Que, como eu, talvez por mágoa e desafeto, Abandonou o seu ofício de arquiteto Para changuear migalhas de um amor!
A volta é bem mais triste que a partida Quando o tempo rasga em tiras o passado E cobra cada bem que foi deixado Com um preço bem maior que a despedida!
Não mais me lembro de quanto tempo faz E o dia exato em que deixei pra trás Esse paraíso que hoje vim buscar... Pois nessa sina de semear lavouras, Só me perdi entre as melenas mouras E as ilusões de colher o não plantar!
Mas recordo-me a manhã, quase setembro, Quando meus planos mediram, palmo a palmo, As dimensões dos meus largos latifúndios E me convidaram a “ganhar o mundo” No lombo de uma estrada indefinida... Segui promessas da ansiosa juventude, E cavalguei os vendavais que pude Nas gineteadas que encarei na vida!
Só depois de adrenalinas na coragem E tantos tombos que levei no rumo, Entendi os meus valores de consumo, Para cada palmo realdessa paisagem!
Era lindo o dia quando deixei a estância... A natureza lagarteava à luz do sol, E uma brisa fresca brincava entre as pétalas Nos malmequeres da “maria-mol” ...
A casa grande tinha a cor trigueira, A varanda era aconchego da lareira E as janelas eram telas coloridas... Havia rostos sérios nos quadros de paredes, E as cortinas abanavam suas redes Acenando-me graciosas despedidas!
Tudo tinha alma... Tudo tinha vida... Nesse mundo natural onde vivi, Porém nunca poderia imaginar Que tudo o que euiria ali deixar Morreria o mesmo dia em que parti!
O açude das casas ainda existe, Agora de águas turvas e olhos tristes Espionando-me sobre o manto de aguapés...
O alambrado decomposto do potreiro, Onde eu laçava os chibos e os terneiros, Também ruiu ao toque dos meus pés!
No pomar em que eu brincava a juventude Entre os frutos doces de minha infância, O mato não me deixa mais entrar, Mas eu me enxergonas frestas do arvoredo Com a cara triste, pálida de medo De que esse velho estranho possa lhe encontrar!
De vida... Só corujas nas janelas, Formando um quadro triste de aquarelas Que o tempo fez questão de desbotar... E me alertam nos prenúncios e agouros Os valores reais desses tesouros Que perdi quando saí pra me encontrar!
A casa foi ao chão, tal quais os sonhos Que busquei no final de um horizonte Que jamais tive o gosto de alcançar...
A madeira desgastada pelo vento, Como meus sonhos demolidos pelo tempo, Inevitavelmente, desabou... E, como minha alma, rebusca algumas vidas Entre as sequelas e cascas de feridas Desse monte de escombros que sobrou!
O quintal... O jardim... Não há mais nada! Apenas alguns ecos de saudade Do piazito que rumou para a cidade Envolto em seus prelúdios de quimera... Devaneios infelizes transformados Em pequenos cacos de um passado, Que se quebraram em torno da tapera!
Sufoquei minhas raízes ao deixa-las Tanto tempo na espera de um retorno, Que esses anos todos de abandono As tornaram fraquinhas... Quase nada!
Só quando perdi as ilusões que fui buscar Tive coragem pra me reciclar E dar de patas e retorno à estrada!
Ao evadir-me dos maulas sentimentos, Agora tento reerguer-me em nova vida, Com as mãos calejadas... Doloridas... Mas com a alma pacata... Em mansidão...
Aquele João de barro da porteira Vai esquecer aquela antiga companheira E construir umaoutra casa no moirão!
Assim... Tapera, tempo e vida, entrelaçados, Tentam esquivar-se das dores do passado Batendo o pó do antigamente...
O rancho – despojando suas heras, Eu – sacudindo as minhas taperas E o tempo... Esquecendo todo o tempo E ressurgindo em outro sonho no presente!