Vozes do Maçambique
Os tambores são gritos não ouvidos Que o além mar engoliu destino a dentro...
A terra desce do morro Poeirenta nos pés descalços Que pisam a areia e o asfalto Do maçambique de Osório...
Morro Alto está chegando com bastões de guajuvira Roupa branca igual a alma que a pele negra transpira...
Salve ó Santa Maria do congado! Valei-nos São Benedito! E de um lábio imaginário O canto se torna um grito Em cada conta do rosário...
Ora Cristão... Ora Mouro... Rainhas de sol e lua... Que importa quem faz a guerra? Se ela é tambores na rua E dança... A dança da terra ...
Nada é profano nem santo na infantaria do congo E o universo do canto canta as cordas do porongo...
Manoel Chico vem à frente com sangue na cor do manto...
A coroa na cabeça, o brilho negro na cor E um cetro imaginário regendo a voz do tambor... Rei do Congo é majestade na cultura que persiste, Clamando a terra encantada de um reino que não existe...
Ercília vem ao seu lado com o manto cor de Maria...
Olhos tristes... Passos firmes... dignidade e cabeça erguida, Pisando nos preconceitos que ela juntou pela vida... Rainha Ginga é rainha que a festa profana inventa E que a torna sucessora de um trono em que nunca senta...
Todos trazem uma África meio estampada nos olhos...
Como o branco em alvas vestes, tem almas brancas e nuas E, no canto, pedem terras tão longe de serem suas...
Quem nasceu no Morro alto tem raízes, pátria a chão, Pois o morro tem bandeiras nos hinos do coração...
O canto do maçambique desfia contas e lamentos Que se transformam em orações e se vão Osório a dentro...
Grita negro! ... No rufar dos teus tambores! Clama negro! ... No ritual de tuas congadas Uma África Bantu que te foi negada Na pátria que te trouxe escravizado! Senta ao trono posto em tua terra! Põe tua infantaria nessa guerra Para fazer valer o teu reinado!
A terra negra irá ganhar sementes... A colheita fará com que a edifiques E o litoral vai te ver nos maçambiques Como um homem livre... Por ser dono... A voz do tamborim dirá no asfalto Que o reino promissor do Morro Alto Terá um rei verdadeiro no seu trono...
Os pés descalços como asas libertas Com seus lenços e fitas coloridas Vão diferir da África sofrida E da infinita dor que ainda vem ao peito, Pois quem manchou de sangue essas coxilhas, Pegando em lanças, junto aos farroupilhas, Não tem mais chagas para o preconceito...