Apelo de Vida ao Campo
João-de-barro busca a massa pra levantar as paredes de um ranchito para o pouso. Mas que barro? Se de novo o céu pintado de estrelas não derramou nenhum pranto de apagar dor e mormaço.
A cerca fez vistas grossas quando deitou os arames sobre o pasto desbotado. Grampos e crinas nos fios são marcas de um desafio de intenções diferentes: bois empurrando arames, homens cercando terras, agora, grandes pra o gado.
Cocho de sal solitário, ruminando à meia tarde, enquanto o suor verte e arde no lombo de uma só rês… Do campo à mesa das casas como num bater de asas cruzaram uma por vez.
Não mais que meia colônia para o milho e o feijão, trigo, aipim e batata, bois de canga e a carreta. Capão de mato pequeno e a sanga de olhar moreno que se adelgaça aos pouquinhos cruzando o lado vizinho que sofre da mesma sorte.
A gurizada inocente, sem ter total consciência, viu cortinas de aparências ruírem seus horizontes que ficaram bem mais longe das brincadeiras nas poças, de se lavar nas vertentes, coisa normal dessa gente que trinca garrões na roça.
Judiaria ver o fogão cozinhando a carne magra de uma novilha pra leite… Judiaria ver espigas, de cabeleira amarela, fritando dentro das palhas contorcidas pela falta das nuvens gordas escuras, de derramar águas puras pr’essas bonecas de milho.
Tudo arde ali no “beco” que outrora já foi tranquilo; hoje enfrenta um tempo feio de fumaça e labareda, cobrindo de luto a terra que um dia, na primavera, viu flores entre o capim.
Primavera deu espaço pro verão que trouxe a seca. O outono tremeu de frio junto a geada do inverno. Na balança deste cerne resistiu firme o palanque de uma raça bem gaúcha:
Um casal de pele parda, dois guris e seus remendos, costurados ponto a ponto e um altar de encontros pra gratidão dos pedidos que o Pai maior das alturas, por vezes, ficou devendo…
Contam “contas” do rosário em ladainhas e cantos: “Glória ao pai, ao filho e ao Espírito Santo…” Tudo é parte do ritual, até a chuva miúda de enuviar as retinas que é engolida em soluços morrendo dentro do peito curtido a pedras de sal.
O calor seca as entranhas, poda a vontade em sementes… O frio demais também queima a pele frágil das folhas que acordam pra florescer… O que se pode fazer se a natureza que é mãe nem sempre ajuda o colono?
E quando o céu entristece, inundando as esperanças de alimentar essa gente, dói o peito em ver a terra se afogando em mar vermelho, encharcando essas ninhadas de emplumar todo o terreiro ciscando em busca do incerto.
Dói a súplica em pedidos diante da capelinha, no apelo de vida ao campo de quem não vai desistir. É gente que finca os pés na vida que recebeu e sem frouxar um só tento resiste a força dos ventos para honrar o que é seu.
É brabo ver na estrada cortes fundos nos barrancos! A sede em bocas abertas, atirada feito as pedras que rolam de lá pra cá suplicando a quem passar, por conta de uma partida, que volte trazendo vida pras coisas deste lugar!