Cerzido de Rimas nos Rastros dos Panos
A ferrugem na tua pele sangrou feridas antigas. A poeira dos teus olhos não encobriu o retrato, impresso na tua imagem, que insiste nesta viagem de me levar ao passado.
Ouço tua voz insistente deixando rastros nos panos que ultrapassaram os anos vestindo os sonhos dos moços. Ora sábios, ora em alvoroço, nas estampas coloridas que enfeitavam a vida dos que sorriam felizes com a fartura do pouco.
O toque das rugas sábias, de dedos já centenários, corriam nos calendários contando dia por dia. Brotavam peças sem nome cerzidas à luz de velas, a chamas de querosene, que enfumaçavam paredes e iluminavam as mesas que matavam nossa fome.
Fabricaste os vestidos pra os olhares cobiçosos, daqueles bailes antigos, onde uma gaita manhosa abria as suas asas pros romances que surgiam bordados em ponto cruz. Fabricaste tantos véus pras noivas encabuladas que partiam pras costuras dos caminhos de outras casas.
Costuraste cama e mesa… Também pariste a certeza das colchas de mil retalhos que consertavam casórios que não podiam ter fim. E tu vieste, pra mim, costurando sem temor a minha história de amor num altar de ofertório.
O tempo também costura… Costurou rima pros homens, que precisavam ter filhos, unindo vida aos seus nomes registrados em cartórios que alinhavaram permutas. Eram frutos que chegavam iluminando suas casas pra depois bateram asas nos ciclos da vida bruta.
Enquanto os pais ensinavam as lides para os guris, fascinadas pela máquina matraqueando nas tardes com mate doce e biscoito, as meninas conheciam o milagre das junções de rendas, linho e galões que corriam chão à fora, nos cerzidos mais afoitos.
E lá te ias com eles fabricar novas roupagens… Cobrir corpos das imagens dos santos, nas capelinhas. Fazer tapetes pros pés que vinham postar-se unidos nas orações de pedidos por chuva ou por tempo bom, mas que trouxessem a benção pra uma colheita que vinha.
Hoje, ali descansando, vejo passar num segundo toda uma vida em costura de mulheres, sem molduras, que cosiam seus retratos. Com agulhas e botões, cantarolando canções, gravaram, nesses tecidos os tantos anos vividos através das gerações.
Embora esse teu ofício de costurar, permaneça; embora a tua beleza esteja ali estampada; teus passos nesta estrada foram apertando demais. Franziram roupas modernas, enferrujando tuas pernas que pediram por descanso, já não caminhando mais.
Então, te peguei em meu colo e embalei o teu sono. Não estás no abandono, esquecida, onde figuras. Conquistaste bem no alto da prateleira de acervos o lugar em que te vejo reinando na eternidade… Réquiem pra posteridade, velha máquina de costura!