Das Infâncias Esquecidas
Ando pensando demais pra pouca idade que tenho. Entendo que o tempo passa... Também serei gente grande e temo que, um dia, esqueça das tantas coisas que amo.
Fecho os olhos e vejo, sentada ali, me olhando, de cabeleira amarela, a Marica que chorava sempre de toda a goela. Eu cantava num embalo para acalmar a bichinha. Ia contando as histórias que ouvia da minha vó.
No tempo dela, as bonecas tinham cabelos de verdade que nasciam das espigas colhidas do milharal. A roça mais parecia uma fábrica gigante, pincelando as cabeleiras loiras, ruivas e pretas, conforme o passar dos dias.
Marica logo adoeceu. Nem seu choro pude ouvir. Fui dar água pra menina e acho que ela engasgou. Lembro o dia em que chegou naquela caixa enfeitada que vinha com manual. Cuidado! Isso não pode! Mas como eu saberia que água, faria mal..?
Passos surdos no tapete, apontando a direção, me levaram ao porão onde nunca quis estar. Tropeçando na incerteza daquele mundo estranho, sem os barulhos medonhos dos joguinhos que viciam, eram portas que se abriam convidando-me a entrar.
O medo, então, foi-se embora quando de cima do armário uma caixa empoeirada, de silêncios e esperas, abriu-se diante de mim. Era a infância guardada pelo relógio do tempo que castigou sentimentos entre os brinquedos antigos com dentadas de cupim.
Ela encantada, sorria... Mostrava os olhos brilhando como quem ganha um presente. Embrulhadas em tecidos, de já gastos coloridos, saltaram cinco marias, pulando entre meus dedos sem reservas de segredos, saltitando em minha frente.
Ela sorria e chorava quando pegou, com carinho, uma bruxinha de pano que sequer tinha nariz! Ver a minha mãe feliz, chorando, nesse momento, me levou ali pra dentro da caixa desse tesouro e entendi que seu choro vinha com riscas de giz.
Coitadinha da Marica... Sabe Deus de onde veio? Essas bruxinhas nasciam das mãos de fazer biscoito que assavam pão no forno, que costuravam remendos nas roupas de quem saía pra lida dura dos dias antes do sol nascer. Mãos com história nos calos que acordavam com galos cantando ao amanhecer.
Marica não chorou mais e alguém veio pra sala. Chegou sem dizer palavra... Viu que estava em casa quando encontrou na parede o velho rosto enrugado da dona das mãos de fada que lhe ausentaram nariz, pois sabiam da poeira que o tal destino reserva pra quem insiste em viver.
Essa bruxinha sem nome voltou da infância esquecida. A chorona da Marica foi morar lá no porão. Foi dormir naquela caixa dos sonhos empoeirados pra só voltar do passado pelos passos do futuro que certamente virão.