Duas Taças de Cristal
Eu pensei que estava viva por ver que a respiração movimentava meu peito.
O ar entrava e não via que o outro ar que saía tinha marcas de cansaço de um esforço que era em vão. Na sala de cirurgia, todas as portas trancadas… Se existia esperança, era triste feito a dança de quem vive de ilusão.
Enquanto o pasto crescia mudando o campo de cor, nasciam dentro de um peito, como pássaros sem asas, cristais que eu não conhecia; silenciosos, escondidos, feito um vulcão que dorme e acorda sem avisar incendiando a alma inteira quando começa a queimar.
Eu, entretida com os dias que vinham trazendo sopros, de exteriores que vibram, quando os olhos deslumbrados vislumbram, embriagados, somente as aparências, esquecendo que a essência carrega muito mais que a verdade, esqueci-me a realidade e descuidei do meu peito, que me avisava de um jeito que eu não compreendia.
Era o início de um fim… Os cristais desconhecidos cresciam dentro de mim.
Na juventude foram “taças” que, por muitos desejadas, mantinham-se preservadas na rigidez de um olhar, de quem deu a sua vida despejando sua benção pros meus caminhos incertos, neste mundo do avesso onde tantos pagam caro desconhecendo seu preço.
Campeando o rastro dos sonhos, o amor brindou-me a vida. Do cálice jorrou o leite, néctar, pros que chegavam sedentos desbravadores. Era a mãe se sobrepondo aos sentimentos de um ego que a solidão vem impor. Era a mãe sentindo amor amamentando o seu filho.
Velei o sono de tantos amanhecendo acordada! Atenta a dor das paixões! Atenta a dor de um consumo! Atenda a dor de ilusões! Num rancho de olhar estrelas, olhei por todos os meus. Meu rancho de olhar a lua não previu a dor que veio. Segredou, se houve motivos… Deitada sobre meu leito dividindo meus espaços, esses cristais em pedaços, consumiam os meus seios.
Agora atenta ao meu corpo… Agora, tarde demais?
Amanheceu um céu triste e o sol não apareceu. Choveu o dia… Chovi eu… A erva azedou o mate… Meu olhar de horizontes não mais abriu as janelas. Despi-me das águas doces, banhei-me em águas de sal, ao ver meus seios de outrora se transformarem, agora, em pedaços de cristal.
Cristalizei-me inteira! Endureci-me por medo! Calcificando aos poucos, fui traída por mim mesma! Quanto tempo sem tocar-me? Perguntou-me a ciência… Com peso na consciência, tocou-me a mão do destino.
Mudei por dentro e por fora. O gosto amargo inundou-me levando o brilho e a cor. Cobri todos os espelhos. Sem vaidade, sem estima, abandonou-me o prazer, levando todo o sabor. Sem compreender de onde vinha essa cruz, pra carregar, juntei forças que não tinha, pois precisava continuar.
A estrada se fez escura. Machuquei quem mais amava ao carregá-los comigo nesta batalha sem nome, que aos poucos me consome onde me vejo vencida. Machuquei-me ao vê-los tristes, sofrendo pela impotência de viver, na minha ausência, como crianças feridas.
Alimentei-me de palavras. Bebia carinhos, abraços… Bebi a bula da cura. Talvez eu tenha deixado pra beber tarde demais.
No silêncio “eles” chegaram… Cresceram quietos, cruéis, desenganando os fiéis que, ao orar não vigiam. Por isso, eles silenciam e calcificam os seios que entre seus devaneios não veem o mal se espalhar. Enquanto a noite se deita, a terra vai se enfestando, e a praga se enraizando sem dar tempo de acordar.
Agora, de olhos fechados, escuto esse ir e vir do ar da respiração. Não sei se ainda estou viva… A mesa foi arranjada para um só brinde quando chegar o final. Se for a Sua vontade segue o milagre da vida, ou com a minha despedida, nada será servido.
O gelo é caco de vidro… e atiradas sobre a mesa duas taças de cristal!