Na Cabeceira do Poente
A estrada antiga se apaga na despedida da tarde... Imagens de céu e campo, animais enfileirados no rumo dos paradouros, no alto de uma coxilha...
O céu se pinta de cores na vestimenta das nuvens, na cabeceira do poente. Parece que uma tristeza vem junto c'oa calmaria num pealo de lembranças nesse rodeio da mente.
A paisagem se prepara para abraçar os barrancos, para engolir as divisas fabricadas pelo homem de mãos pesadas de sol… Agora o gado rumina, seguiu a trilha do pasto riscado de um lado a outro na geografia da fome.
Nalguma sanga perdida, nalgum brejo encabulado, alguém entoa cantigas que tocam dentro da alma, que acordam fios de saudade extraviados pelas lidas e pelos calos das domas...
Parecem cravos no peito, de uma saudade sem nome, de quem quis viver solito, mas sente a sede dos mates, cevados na companhia de alguma alma serena aquerenciada no rancho.
As nuvens, ruborizadas, escorrem lá no horizonte pra despedida da luz… Um ar gelado se acampa no silêncio das macegas que costeiam aramados, e um casal de vaga-lumes começa a ronda da noite na escuridão da estrada!
Alguma lebre atrevida perde a noção de espaço e atravessa o corredor! Na fuga, pro outro lado, perde a noção do perigo e, por certo, sente o susto da audácia do próprio ato.
Mariposas, grilos, sapos… Um universo campeiro de sons e de movimentos, camuflados pelo dia, vão desatando seus nós... Ganham vida, nesta hora, quando a luz se vai embora atrás das nuvens de pó.
Num mourão, já descarnado pelo rigor dos invernos, uma coruja é o mestre da vasta sabedoria, postada sem um piscar… Mau agouro, bom presságio, morte ou vida, ninguém sabe, mas a figura é presença no mourão e nessa crença de quem veio pra avisar...
Há tanta vida escondida nas margens dos corredores, nas taipas e nas coxilhas, na solidão dos capões! Quando a poesia do campo abre os olhos no escuro e vem sentir o aroma derramado pelo orvalho, almas vagam na culatra das tropas das emoções…
Pouca gente se dá conta, do muito que há, numa noite, na paisagem lá de fora, quando o sol se vai embora parecendo não voltar… Há muito para ser dito, há um universo escondido na mudez dessas gargantas…
Cataratas nas retinas apagam parte da história que o futuro herdará! Lá fora tem muita vida na cabeceira do poente, mas existe pouca gente, pouca gente, pra contar!