No Sarau dos Meus Fantasmas
Voltei da boca do inferno já nem sei se sou humano...! Pois meus diabos em revolto confundiram minha insânia com os pecados dos outros. ... paguei minha penitência no sub mundo dos loucos...
Perdi a minha marca terrunha depois que deixei o Pago... Mas hoje voltei... Embora tardo e despácio num vulto noturno e vago desbotado pelas eras... Voltei... Pra descobrir quem eu era bem antes de ser ausência, na remota aparência da mais sinistra tapera...
A casa grande era esta... Sim, era aqui o salão de festas que engalanava a querência, hoje sobejam gemidos nos partos da decadência...
Teias de aranhas decoram candelabros e cortinas, o asco sombrio e mofo afogam olfato e retina... Paredes rotas roídas por intempéries e ratos na indiferença austera dos avoengos retratos...
- Cá estou eu velhos fantasmas...!!! Desçam solenes do sótão sejam meus anfitriões, preciso vencer os medos que arrasto como grilhões... O meu retorno e motivo pra um sarau com muita dança quero enfrentar os demônios que assombraram minha infância...
Hoje dancem... dancem comigo!! Brindem...! O vinho do deus das trevas em barbaresca orgia... Bebam... As razões do meu retorno com gosto de covardia...
Dancem... Rompendo farpas e brumas qual nuvens urgindo garrar num sarandeio de plumas... Gritem... Engolindo mil fagulhas... Com provérbios indigestos que vomitam aleluias.
Dancem... Com indecência profana coreografando bailados que zombam da alma humana... Gritem... Sorrindo carrancas feias num sincronismo perfeito nos trejeitos das caveiras...
Sejam fantasmas somente!! Despidos do corpo gasto que a muito virou repasto dos vermes de um campo santo... ... do orgulhoso perfil resta o esqueleto vazio horrível mas verdadeiro é o lado avesso do humano que no “arrogo” de mundano se acha lindo no espelho...
Brinquem... Com o cio das criaturas no mais satânico rito acasalando figuras... Riam... Dos que no inverso do verso vivem no inferno que eu vivo estilizando o delírio que baila em meu universo...
... corujas tragam no agouro macabras inspirações, pra rascunhar os meus traumas com a réstia dos lampiões... ... morcegos venham pra festa comungando aberrações chamando outros fantasmas que habitam os porões...
Dancem... dancem! Qual Salomé ao seu amo que por capricho tiranot teve a bizarra conquista... Peçam... Meu crânio por oferenda qual Salomé por horrenda pediu o de João Batista...
Dancem... dancem! Que enlouqueçam as turbas hinários e partituras e tenores se agigantem. ... dos fantasmas quero abraços pra consolar os fracassos do meu mundo delirante...!
Sim... voltei da boca do inferno já nem sei se sou humano! Por isso dancem, dancem... dancem comigo!!
Talvez eu tenha morrido e ainda não percebi e sou só mais um fantasma que veio morar aqui!!