Milonga em Silêncio para Estes Dias de Hoje
Perdoa, minha guitarra: Hoje eu prefiro o silêncio...
Minhas velhas mãos milongueiras, Menos firmes do que penso, Não tocarão tuas cordas Nem teu ventre de madeira.
E não me faltam motivos Pra percorrer tuas canhadas Descobrindo as melodias Aquerenciadas no verso: Razões de esporas e estrivos, De domas e carreiradas, Que fazem o dia-a-dia Do meu pequeno universo.
Não é que as coisas do campo Com suas belezas terrunhas Me sejam indiferentes Ou não me falem à alma: Bem sabem os pirilampos – Que tomo por testemunhas – Quantas milongas plangentes Cantei em noites mais calmas.
Mas nesses tempos pesados, De incertezas e esperas, Te confio, minha guitarra, Meu mais íntimo segredo: Meu verso anda calado Num mutismo de tapera E invisíveis amarras Manoteiam os meus dedos.
Porque é preciso beleza Pra que nasça a poesia Na sua forma mais plena: Xucra, rebelde, inquieta! Mas vendo tanta tristeza No entrevero de hoje em dia A palavra se apequena No coração do poeta.
A voz do verso emudece Num sentimento profundo Que a emoção, sem alarde, Não sabe explicar o que é Ao ver que o homem padece Nos quatros cantos do mundo Com o fanatismo covarde Que mata em nome da fé.
Como cantar a querência Se os jornais e noticiários Estampam por todo o estado Notícia de mau agouro? A maleva violência Virou costume diário E o cidadão virou gado Rumando pro matadouro.
Como cantar horizontes Ou proezas de ginetes, Falar de esporas de prata Ou de um pealo de estouro Se estamos morrendo aos montes Enquanto, nos gabinetes, Sanguessugas de gravata Enchem suas burras de ouro?
Parece que a humanidade Até deu volta pra trás! O ódio e a intolerância Cavalgam a trote largo. Que triste realidade Perceber, assim no más, Que o homem, em sua inconstância, Tornou-se bem mais amargo.
Pensando bem, minha guitarra, Este é o justo momento De buscar nas tuas cordas A inspiração esquecida E em milongas e chamarras Resgatar o sentimento Que se extraviou campo afora Nos corredores da vida.
Porque à maneira dos ventos O verso tem seus caprichos: Por vezes é brisa mansa, Por vezes é furacão; A poesia é alento Pra estes dias cinzentos: É flete que não se cansa! É luta e libertação!