O Corredor e as Janelas
Nesses caminhos tamanhos que recortam as distâncias, as porteiras das estâncias são bocas pra’o corredor. ...Onde o vento faz fiador ao andar de quem alcança velhos rastros de esperança deixados sob o rigor...
E, por diante, vão surgindo como rimas de um poema silhuetas – ainda pequenas – que são ranchos com ramadas. ...Moradias encravadas entre sombras companheiras e vestidas pela poeira que o casco ergue da estrada...
Cada ranchito, uma vida, e uma fraterna intenção... ...com crioulo coração pulsando sob a matéria. Com feridas que a miséria não cicatriza e nem cura, mas com lume de alma pura tal fosse a maior artéria!
E, nas frestas das janelas que são olhos disfarçados resistem quadros moldados guardando genuínas cenas. Depois que as noites morenas descerram as aberturas se exibem diante as lonjuras francas imagens serenas.
Na madeira retorcida de uma ventana solita havia a face bendita da “doninha” na soleira. Cuidava sombras lindeiras dos tropeiros que cruzavam e sempre lhe cobiçavam como fosse a vez primeira!
Por uma frincha entreaberta n’algum galpãozito a frente, vê-se o caseiro – contente – calçando seu par de esporas. ...E quem o avista de fora compreende o terrunho encanto de quem vai sair ao campo ao encontro d’outra aurora...
Conforme este corredor conduz o andarengo além surgem depressa também janelas de mais moradas. Uma que resta fechada com silêncio absoluto... ...A sua tranca é a dor do luto, e a saudade está guardada!...
Batendo estrivos, solito e ouvindo a rima da espora, vai-se o campeiro, que escora suas solidões no assovio. De tantos ranchos a fio que vislumbra neste rumo parece perder o prumo ao lembrar do seu, vazio.
Passando pelas taperas - que são horas esquecidas aos ponteiros da guarida – vê no vão das rachaduras um tempo que só perdura nas janelas do passado... ...e segredos extraviados que agora, ninguém procura.
Seriam, essas janelas que restam nos corredores as poesias interiores dos escritos de quem mora? Ou, pelo lado de fora desenham à imensidão simples traços de rincão feitos pela mão de outrora?
E nas largas aberturas dos bolichos domingueiros há semblantes de povoeiros judiados d’algum verão. ...Deixam penas – por que não? – no esquecimento preciso que a prece branca de um liso entrega junto ao balcão.
O corredor e as janelas Comungam do mesmo rastro, Do mesmo destino gasto fadado para esses fundos. São como breves segundos que a idade coleciona nas andanças temporonas que tocam a um viramundo.
Já de “mourito” suado pelo compasso do tranco, nenhum lugar passa em branco se as janelas mostram algo que enche o presente vago de quem leva na mirada episódios das estradas em memórias, ao seu pago.
Os postigos tem olhares escancarados e atentos embora apenas o vento faça ronda às cercanias. ...E depois que a cor do dia veste o negror do infinito adormecem – acredito – cansados dessa vigia!...
Nesses caminhos tamanhos que recortam as distâncias, as porteiras das estâncias são bocas pra’o corredor. E o vaqueano rumbeador distroce léguas singelas percebendo que as janelas existem por onde for!