Pra Cada Céu Estreleiro
Há um espaço na querência pra cada céu estreleiro, com silêncios de paciência e um maternal paradeiro… Um resto de noite guacha que lacrimeja, escorrendo sereno sobre a bombacha e o pasto que vai nascendo!
Pra cada céu estreleiro existe uma aguada boa nos arroios companheiros… …no remanso das lagoas; E a D’alva - luzeiro andante - com seu rosto distorcido, revê saudades de antes neste espelho umedecido!
Há um domador estendendo seu redomão assombrado… Timbre de arreio rangendo, falando pro descampado… Há brasa em ponta de pito, conforme a hora, minguando; …Fogo amigo que os solitos acendem de vez em quando!...
Há confiança entre os lindeiros, nas porteiras encostadas onde alguém passa primeiro deixando livre a cruzada; E mais adiante, ranchitos com céus no além das janelas, o bastante num “pouquito”... …e a fé num toco de vela!
Pra cada céu estreleiro há um escuro que resiste; Vento que varre o terreiro, coruja que canta triste! E um segredo necessário que ninguém vai descobrir, mas que é parte do cenário somente por existir!
Há um luar “quarto crescendo” nas voltas do corredor, por inteiro se aquecendo sob o poncho do negror. E outras luas, por metade, que restaram andarilhas, engolindo a liberdade pelos cascos das tropilhas!
Pra cada céu estreleiro há uma antiga nazarena, com idioma musiqueiro retinindo as próprias penas… Procurando - mais que o par - outras tantas semelhantes que nasceram pra ficar longínquas e mais brilhantes!
Há uma siá dona, esperando seu cambicho d’outras eras… E um mocito que, cismando, não diz, mas também espera; Há uma lembrança perdida que se encontra, de repente, pra ser outra vez vivida n’algum sonhar inocente!
Pra cada céu estreleiro, há uma manhã que virá… E um vazio pelos potreiros que algum campeiro encherá. Um sol chairando o descanso, pra clarear rincões depois… E a sombra dos pingos mansos no mesmo vulto dos bois!
Há um grilo versejador rompendo toda quietude no seu timbre sem primor, meio terno, meio rude. E uma garoa tão fina que se escuta quase nada… …só quem percebe é a retina ao ver a terra embarrada!
Pra cada céu estreleiro, há uma quincha que se banha com gotas que as Três Marias derramam pela campanha… Há uma tapera dormindo seu sono da eternidade, …Parte dela inexistindo, mas, viva noutra metade!...
Há um Cruzeiro que, distante, bebe a noite no gargalo… …e aponta léguas adiante pra o olhar do meu cavalo. E algum rastro de “cadente” que custa pouco a sumir, deixando dentro da gente anseios pra se pedir!
Pra cada céu estreleiro, há um ciclo de benzedura que levanta algum terneiro… …que todo abichado cura. Há um sopro que foge às frestas dum galpão - terrunho abrigo - e esse ar que ele me empresta careço em levar comigo!
Há muito e sempre haverá aos que quase nada tem… …Que andam ao Deus-dará atrás do que nunca vem. Mas guardam o campo afora (que não lhes é passageiro) e um chão riscado de esporas pra cada céu estreleiro!