Vento de Estrada
Deitou a crina d’um manso que pastoreava o silêncio no potreiro - manhã cedo - Depois, ouviu os segredos da cerração que baixava e a geada que levantava como um suspiro de medo.
Tirou um poncho pesado dos ganchos pelo galpão por cismas de ser gelado; Assoviou nos alambrados aos ouvidos do infinito e seguiu, terno e solito, cruzando campos dobrados.
Nem quis varrer a ramada do ranchito companheiro porque não é seu destino. ...Nasceu pra ser peregrino das lonjuras e canhadas, dos fundos das invernadas, desses rincões tão genuínos!
Nesses caminhos abertos de corredores e sangas, de várzeas e mil porteiras, visitou grotas lindeiras onde o vazio é um poema… …onde a saudade é pequena pra’s horas da vida inteira.
Tocou as rugas da face d’um andante que rumbeava lembrando os tempos de antes. Franziu-lhe a tez do semblante num arrepio passageiro; (…Sem fazer caso, o campeiro refez as léguas por diante!…)
Fez coro ao aboio calmo do tropeiro que levava bois e tristezas a frente. Cantou em tom diferente no guizo das nazarenas - estrelas D´alvas serenas que ensaiam rimas dolentes -
Chamaram “vento de estrada” porque não ronda as taperas nem faz pouso em parador; É o vento que o tirador sente nos flecos miúdos e sopra verbos agudos das poesias do rigor.
...O que esparrama os aromas nas primaveras airosas com espinho e flor baguala. E depois perfuma um pala com o olor de rubra rosa que a moça solta - amorosa - nas carícias que resvala.
Tem frescor de aguadas claras se recorre as tardes mornas balançando o véu dos matos. …E vai compondo relatos em crioulos testemunhos perdido dos “redemumhos” por liberto e tão pacato.
Vento que embala a cancela no seu sono desparelho cortado pelas cruzadas; Que seca gotas deixadas nos fiapos das barrigueiras se as recorridas inteiras apressam desencilhadas.
Não insiste entrar nas frestas das moradas aquecidas pelo abraço dos fogões. Persegue as imensidões e o “Deus-dará” das distâncias... ...Venta fraco nas estâncias, mais forte nos corações!
Deitou a crina dum manso que pastoreava o silêncio… …e a manhã recém clareava. E a geada já lhe esperava, e a cerração se sumia… …e o vento chamava o dia de tão leve que soprava.
Fez viajar a fumaça que o pito d’algum caseiro largou junto a madrugada. E seguiu essa jornada de ser de tantos e o mesmo… …de querer viver à esmo só por ser vento de estrada!