Disseram Que Era Feitiço
I Hum mil e oitocentos e sessenta e seis o ano. Na Vila Boca do Monte Maria Antônia, negra forra segue o périplo dos dias levando alento aos humildes, no ofício de curandeira. Henriqueta, moça branca, apresenta um quadro sério Uma “doença de mulheres”, sobrenatural, talvez, pelos relatos de então.
II As mãos de Maria Antônia, mãos de oração, mãos de cura, olhos ternos de bondade. Crê nos Santos Mandamentos, em Deus pai onipotente, na Virgem Santa Maria, Mãe de Cristo Nazareno. Não há feitiço há magia, Quem tanto a vida judiara retribui fazendo o bem, Atendera o chamamento pra cuidar a moça enferma.
III
Mulheres, um mundo à parte, signos, curas, fascínio, reino encantado das ervas, Saberes que vem de longe, Dos griôs, antigos mestres, africana pachamama. Veio uma índia Pagé, um cirurgião oficial e um homeopata de ofício, Cada qual com sua ciência. A moça em franco declínio, culpou-se a negra. Feitiço !
IV
Nos porões do submundo, presídio do vilarejo, a negra amarga a injustiça, ignorância, cegueira. A garra feroz do mando, batendo em quem não tem força, rompendo o elo mais fraco, ferindo a ave mais frágil, cortando as asas e a voz. Mais fácil prender a negra que homens de pele branca e sobrenomes de além mar.
V
As mãos de Maria Antônia, mãos de cura e de carinho, mãos de benzer e abençoar, invocar forças do bem, mistérios da natureza. O cosmos sempre conspira a favor de quem lhe invoca, em nome da Grande Luz. Existem entre céu e terra, mistérios de forças tantas a socorrer os que clamam, No mister de bem dizer.
VI Na revisão processual, provas muito inconsistentes, determinam a soltura. Perseguição insidiosa aos saberes populares. Maria Antônia, vida em frente, no lento rodar dos dias, trouxera em sua defesa um passado cristalino. Bondade, amor, compaixão, entrou de frente na história, sem temor ante ao injusto.
VII
A Negra era feiticeira E era tão fácil provar, trazia um feitiço estranho, envolto em véus de magia que ninguém sabe explicar. Um coração machucado, de tanto andar e penar, Era puro encantamento. Feiticeira Maria Antônia Com bondade sedutora Que não sabia outra coisa A não ser semear amor!