Se For Falar de Saudade
I
Quem não souber de distâncias de estradas que se desdobram ausências de toda ordem sonhos, mágoas, ilusões, quem não souber de partidas do algarvio dos encontros não me fale de saudade. Vamos falar do intangível que não se vê nem se escuta nesses grotões abismais madrigueiras de mistérios que se carrega em segredo desde o principio de nós.
II
Se for falar de saudade vamos contar dos amores. Muito mais, da ausência deles mas a saudade não fala, um grande rio insondável leva por diante impassível tudo o quanto já foi lindo. Rio de lágrimas, de angústias, das noites de sono a esmo, mas que transmuta e transforma, mesmo que corra em silêncio pra os longes da soledade.
III
Saudade,campo deserto ante um olhar de lonjura entre coxilha e restinga. Campo despido de história pasto seco, vento morno. As invernadas vazias de tudo que já foi vida. Um sentir de nostalgia gravado pelas retinas guri que veio da infância ao parar ante a tapera que aos pedaços nos retrata.
IV
Ambígua, nunca vem só Vem entre claros e escuros fuga de tempo e lembranças. Uma ausência estando em nós Que nos põe fora de tempo Pra ser saudade outra vez . Uma mirada para trás pela garupa do flete. O espaço interminável entre a aba do chapéu e a moldura sem silhueta, nem acenos na porteira.
V
Se for falar de saudade que seja desse momento caravela sobre as águas no rio de muitos andares. Das nossas próprias distâncias das nossas tantas ausências. Relicário de recuerdos música leve aos ouvidos e esse estranho paradoxo: Um rosto que vem dos longes trazer lembranças tão lindas E tão amarga saudade....
VI
Se for falar de saudade vamos dizer das imagens, a curva triste do rio que o barco longe desenha. No céu azul que foi ontem a fumaça em garatuja do trem que não mais voltou. Olhar cinza de um retrato no mais fundo das gavetas pelos rincões que nós temos. A brancura da palavra que ficou lá no silêncio pra transformar-se em saudade.
VII
Saudade não se traduz. Talvez um olhar pra dentro quem sabe um olhar distante. Imensurável lonjura entre o olhar do retrato e aquilo que não foi dito. Ou quem sabe, sem palavras sem olhares, nem pensares seja apenas a distância entre o olhar do retrato que dormita nas gavetas e o tempo donde ele veio.