Da Esperança aos Malacara
É este costume antigo De me fazer recordar, Nas vivências do lugar, As imagens, o galpão, Pátio, poço e casarão; O longe mostrando a estrada; Um açude, a ramada E os sonhos na imensidão.
Era o rincão da Esperança Onde me vejo guri, Onde gaúcho nasci, Onde volto diariamente. Como pensar diferente? E as vezes nisso me espanto, Se em cada verso que canto Eu estou lá novamente.
Um telurismo vestindo A rima nova do poema, Outra lembrança serena Da poeira leve subindo, O som dos laços tinindo, Depois da mira certeira, Nas pealações de mangueira, Herança de tempos lindos.
E a tordilha tronqueira, Com garras de campereada, Nestas linhas vem pintada Com a raça nobre dos pingos, O sangue guardou respingos Destes cavalos de guerra, Que um dia voltam pra terra Para enfeitar os domingos.
Tropeada e volta de estrada... -La pucha- quanta alegria! Muitos Capões, Vacaria, Capão Grande o firmamento... Ubiratan, Daltro e Bento, Personagens verdadeiros, Neste universo campeiro, Filhos da serra, do vento.
Hoje restou desta Estância Somente o nome - esperança - E nos olhos de criança O quadro vivo dum verso. Frente a este mundo disperso De outras crendices, manias, Me vejo voltar com os dias Cantando outro universo.
...Bem mais adiante, outros lados, Já mais mocito, recordo, O sentimento transbordo E um verso novo me arranca, Trago batendo na anca Um laço antigo de rimas, Cruzando o arroio do Lima, Malacara e Casa Branca.
Por lá andei “nos Barcelo” Fui peão de “muy” recorrida, Lambi o gosto da vida No sal de um campo nativo; E assim de modo instintivo Golpiei potro e juntei gado, Me vi no arreio pregado Ao me tornar primitivo.
Juntei lições nos caminhos, Com serviçais e patrões. Tive aula nos rincões E a casa sob o chapéu, Foi pouco esse mundaréu “Das grota” e do gado alçado, Coxilhão, pedra e banhado Tudo entre a terra e o céu.
A canha, o fumo com palha, Carreira, gaita e bolicho, O tempo nunca foi micho Para trovar no balcão; Lua cheia de clarão Na volta de algum domingo, Lembrar da prenda sorrindo Laçando meu coração.
Do rincão dos Malacara, Igual ao outro - Esperança- Também mora na lembrança Brota e rebrota em canção, Infinita é a razão De entonar com tenência, Essa xucra procedência De amor por este chão.
A cantilena me conta -Dá de rédea e frouxa a boca- A lembrança não é pouca Ao cantar estes rincões, Me vêm invernos, verões, Aroma, gosto e silêncio, Ao derramar sobre o lenço O choro das gerações.
É brabo falar do tempo, “As vez” nem dá pra pensar, Mas caso alguém presenciar Um timbre de estórias raras, É meu verso metendo a cara, Contando de outras verdades, São rincões da minha saudade, Da Esperança aos Malacara.