Égua de Manada
O vento sopra de lado Sarandeando no topete, Daquela que já foi flete, De toda e qualquer parada. Hoje de cola aparada, Ciã de lombo e cascuda, Mansarona e barriguda, Pastando junto a manada.
-Se acaso eu leve o buçal, Eu sei que ela espicha o toso ! - Daquele jeito mimoso, De outrora, quando potranca. Já um sorriso me arranca, Pois logo vem, e me lembro, As imagens dos setembros Com o laço batendo a anca.
...E que recuerdo buerana, Se fecho os olhos ao teu lado, Eu me sinto enforquilhado Num trono de quatro patas, Correndo por patarata, Libertos num campo fundo, Com sonhos de viramundo E as penas da sorte ingrata.
Tordilha negra, escura, Até de moura chamavam, Mas a mim nunca enganavam, -Tordilha é sempre tordilha - O tempo tinge a virilha, Vai desbotando a cabeça E antes mesmo que pareça, Tordilha é sempre tordilha!
Com as folhas do calendário Foste mudando a pintura, Da tua silhueta madura, De égua séria e domada. Depois que o inverno cruzava Tu ganhavas mais um tanto, Do rastro de pelo branco Manchado pela geada.
Eu gosto de olhar pra ti, Minha égua dos arreio, Hoje longe do potreiro Mais livre, bem mais que eu, Nosso rumo se perdeu E a trança rompeu no meio, Um mundo de devaneios Correu depressa… correu…
Foi braba a tal rodada, Aquela que nos pisou; O teu quarto descontou, O meu pé custou curar... Mas doeu bem mais sacar O meu arreio sovado, Te largar de lombo suado Pra nunca mais te encilhar.
Um gaúcho que se aparta Do seu cavalo de estima, Comunga da triste sina De dar adeus pra quem gosta, O tempo cobra a aposta Perdida e desencontrada, Com as encilhas penduradas Procurando uma resposta.
Por isso que foi pra cria, Pois há de deixar marcado, O teu sangue num legado Para aqueles que virão, Na forma de galardão Vou entonar tua história, Dessas que prendem a memória N’algum causo de galpão.
E nesta pança graúda Encilho sonhos maduros, Ao desenhar o futuro Naquilo que imagino... -Talvez um potro sabino, Garboso e bueno de encilha... Ou uma potra tordilha (Mais uma no meu destino). -
Mas uma coisa é certa, No ventre vive a esperança E no campo a confiança De seguirmos produzindo. Num passe de lua, lindo, Nos braços da madrugada, Estará pela manada Mais uma égua parindo.
O campo segue tão vivo Nas macegas cambaleando, De crina suja, campeando, O apojo no gargalo... O tempo cruza no estalo, Vem buçal, garra, confiança E a história como herança, Feita por homem e cavalo.