O Mistério da Gaitita
-Gaitita, além do instrumento de nobre sonoridade, despertas curiosidade com teus duendes por dentro. - Quem nunca, por um momento, fez o mímico compasso, de mover dedos e braço, com cara de índio taita, tal se tivesse uma gaita se torcendo num abraço.
Até o guri inquieto vive sempre a arrodear, os floreios do Itamar nas vaneiras do Adalberto, sobra o dedinho do neto, como quem não quer mais nada, levar a tecla apertada, a fininha, mais de baixo, pro vô se fazer de macho, segurando uma risada.
Coisa linda, num farrancho, quando Lauvir chapeludo, larga um xotes melenudo soprando a quincha do rancho, lá na copa o Zé Carancho, faceiro e bonachão, remarcando de garrão, ao se curvar desparelho, faz trejeitos que no joelho traz a gaita de botão.
Talvez, por atrevimento, um borracho patacoeiro, pegue a gaita do gaiteiro mesmo sem consentimento, pra fazer o movimento de fole, num vai e vem, para espanto de ninguém, não sai nada de agrado e o mamau inda é jurado de apanhar nos recavém.
O professor João Maria, desprovido de um sentido, toca a gaita de ouvido com pureza e maestria. Mais de meia Vacaria aprendeu peculiarmente, e ganhou como presente ser aluno do tio João. Não necessita visão, pra olhar o que a alma sente.
Pra uma serrana o que resta, além da sabedoria, é na cadeira vazia reencontrar a seresta, até a memória empresta ao contar humildemente, parecendo ver na frente seu amado Adão Bravata, gaiteiro das serenatas e bailes de antigamente.
-Até eu sofro o anseio querendo ser o teu dono, gaitita acordas meu sono, ao escutar teus floreios. Este mistério, eu creio, que carregues por inteiro, parasitando o hospedeiro. - Pois também, além de louco, todo mundo tem um pouco de se fazer de gaiteiro.