Romanescos
‘Stão de redor do fogo, numa prosa faceirita, regada ao doce do vinho num posto (do Pinheirinho). Com relembranças bonitas, de bocas, rendas e chitas, das chinocas, dos caminhos.
São nessas horas de fula, de folga e corpo leviano, com pensares rastreadores, que os mocitos, já senhores, os três peonaços vaqueanos, contam causos, desenganos, galopeaditos de amores...
Seu Aldo fala com as mãos, pintando o corpo de Joana no fandango da capela. Tão linda moça, a mais bela, no bailar a queromana e a trança atiçando a gana pr’um xucro se enredar nela.
Diz ele, que aquela era, de toda florzita guaxa qu’esta querência pariu, a que l’e fez desvario, e ainda faz, ele acha, por uma paixão buenacha, que ao certo nunca existiu.
Conta, até meio micho, d’uma toada de ronda, qu’ele fez pra tal ingrata. O carão inda maltrata, mas sonha que o corresponda e, num voo, a marimbonda escute a tal serenata.
Seu Remi ri deste causo, reavivando o foguito com lascas de guamirim. Emenda também, assim, recordando, por bendito, um amor simples, bonito, que quase lhe deu o fim.
- O nome era Juliana! Diz de zoinho espremido e apalpando o coração… se assombrou, o redomão, ele, por ela entretido, viu num corcóvo fervido bolcar de bofe no chão.
O mundo ficou pretusco e arrodeou compassado até voltar a ser mundo. Com vistaço cheio, inundo, Remi se viu acordado, por um beijo perfumado deixou de ser um defunto.
A tal mocita, assustada, pensou ter enviuvado mesmo sem ver casamento… E o Remi, diz, em questionamento, se a dor que traz “nos costado” foi do tombo ou do pecado, do amor que deixou ao vento.
-Por isso tu anda cacunda! diz o Neno, e arremanga “os punho” d’uma bombacha. Lembrando a sobra de graxa de uma antiga camanga, qu’ele encontrava na sanga, quarando roupa, fortacha.
Se lembra até de um dia, que ele levou nos arreio uma gaita botonera. E explica de tal maneira, entre trejeito e volteio, quão lindo era o floreio, que ele fez pra lavadeira.
Risonhamente soluça, lembra a bolsa de desejo, lotada de gostosura: pinhão, laranja madura, a goiabada com queijo, e a doçura que era o beijo com restos de rapadura.
- Calcule! Numa gaitada, fala o Aldo, enquanto livra o palherito da boca…
O Remi, fazendo conta, mostra nos dedos a idade, dizendo não ter cabresto...
Tio Neno, o mesmo contexto, diz que rolou feito pedra sem se amasiar por engano...
Romanescos, orelhanos, ‘stão de redor do fogo vendo que o tempo correu. Mas cada um guarda o seu amor, numa despedida... Quem não amou nesta vida, por certo nunca viveu!