Um Bolicho que se Acaba
Hoje dorme entre as paredes De um bolicho abandonado, A réstia de algum passado, Aranhas tecendo redes, E a poeira matando a sede No balcão de vender canha. Talvez fosse essa a sanha De se findar algum dia, Depois que a idade judia A perna não acompanha.
Ficaram causos antigos Dos borrachos de ocasião, Riscos de adaga e facão Na rusga dos inimigos, Trago pago pros amigos, Festejo em segunda feira, Hoje fresteiam a soleira Da janela bem cerrada, Igual na porta da entrada, Dormem lembranças ligeiras.
Será que o destino aguarda Pra lhe atacar feito fera? Reservado a ser tapera Numa herança assombrada, Fica um caminho na estrada, Deste antigo parador, Pois muitos guardam valor E deixam como munício Golpear a canha por vício, Saciando a goela da dor.
Tantas moedas pra pagar Nos martelos de uma branca, Pra erguer a vida franca Um homem fez o seu lar. Não se importou de lutar Com a garrafa na mão, Fez rancho e criação Se acostumou achar graça, Vendo os pealos que a cachaça Tombava tantos no chão.
Bolicheiro é sagrado Pras mágoas que alguns afogam, Um pouco pro santo rogam, Depois já bebem golpeado, E agradecem o legado Pro velho atrás do balcão, Que por conta da ocasião, Passou sua vida de macho Dando canha pra borracho, Com orgulho da profissão...
Mas teve que ter parada, Pelo corpo andar cansado O pensamento atrasado, A malícia ultrapassada, Se fosse a canha e mais nada, Mas hoje o vício é sortido Então, de ofício vencido, Bolicho sempre é bolicho, Mas bolicheiro é um capricho, Pelo tempo sucumbido.
Tio Gita preso nos dias, Entristecido somente, Talvez finde de repente, Sem comungar alegrias, Bebendo das nostalgias, Trambaleando a triste sina Que este mundo determina, Que o velhito aposentado Já tem o fim sentenciado Pela falta da rotina.
É assim que a história termina, Do bolicho e seu enredo... Prosa, trago e dia cedo, Cachaçada e jogatina... É o vazio que incrimina, Que um dia tudo se acaba, Mas é cerne e não desaba O Tio Gita Bolicheiro, Que cansou de ser ordeiro Pra quem na canha se baba.