Memórias de um herói
Nas mãos do peão, a terra pulsava, Era berço e sustento, promessa e calor. Cada sulco que a enxada traçava, Era a escrita sagrada de um povo em vigor.
O campo se abria, horizonte sem fim, E o céu, imponente, era um fiel companheiro. Na solidão, moldava o seu jardim, Tecendo no pago um sonho altaneiro.
No galope vibrante de seu alazão, Rasgava os ventos com brio e destreza. Era livre, dono do chão e do pão, guardião de um mundo de simples grandeza.
O mate amargo, na roda ao luar, Trazia consolo ao cansaço da lida. E cada estrela parecia guiar O destino do homem que honrava a vida.
Sua força fazia do árido, flor, Do impossível, um verso no chão ressecado. No peito do peão vivia o amor, Por cada palmo de terra arado.
Mas a roda girou, o tempo avançou, E a fumaça das fábricas cobriu o rincão. O motor rugiu, o silêncio quebrou, e calou para sempre o canto do peão.
Hoje, o arado descansa, enferrujado, à beira de campos que não reconhece. A terra foi vendida, o chão devastado, o herói do passado já não se enaltece.
O peão, despojado de sua missão, vagueia nas ruas sem rumo ou guarida. Seu chapéu desbotado, sem força, sem ação, reflete o vazio que carrega na vida.
“Que fiz eu do campo? Que fez o progresso?” Questiona o velho com olhos sombrios. Seu legado, agora, é apenas um verso, perdido nas curvas de rios vazios.
O mate já esfria em mãos trêmulas, secas, a roda é silêncio, os amigos dispersos. Onde havia união, hoje há brechas, e o futuro que vinha se fez controverso.
Os tratores dominam as vastas planícies, o cavalo, uma lenda de tempos antigos. E o peão, sob a sombra de torres e esquinas, é apenas um número, sem rostos, sem vínculos.
“Eu fui o herói do chão e do vento, carreguei nos ombros a história e a dor. Hoje sou resto, um suspiro no tempo, um eco distante de um mundo em fulgor.”
A modernidade, com suas promessas, trouxe conforto, mas apagou memórias. O peão, que guardava as grandes proezas, agora é silêncio nas páginas da história.
Sua identidade jaz nos campos perdidos, seu nome é poeira que o tempo apagou. E a terra, que outrora abrigava sentidos, hoje é concreto que tudo sufocou.
A morte do peão não foi só de um homem, foi de um mundo inteiro que o campo abrigou. Foi de valores que o tempo consome, de uma alma rural que o progresso calou.
Mas em noites de vento, o silêncio ressoa, o passado murmura em cada canção. E, quem sabe, a memória do peão ecoa, no coração de quem sente o chão.