Tarca do silêncio
Ninguém fica pra semente - foi o que ele disse uma vez, largando o mate com a calma de quem entende que o fim vem manso como tarde de inverno.
Morreu sem alarde. Não teve grito, nem reza apressada. Só um silêncio comprido que começou antes e ficou depois.
A morte não lhe era visita - era vizinha. Passava pelo galpão pisando leve, sem nunca bater na porta. Ele a olhava de canto, com aquele respeito que se tem por quem sabe demais.
Os velhos amigos sentiram primeiro. Não houve anúncio. Só a falta. O mate esfriou mais cedo, o cepo ficou vazio, e o guaipeca, meio sem dono, se deitou no lugar dele como quem entende o que é ausência.
Ficamos ali, com a cuia na mão e a alma meio vazia, cuidando da memória como se fosse tropa solta. Porque lembrança, quando não se pastoreia, se perde no campo.
Ninguém chorou alto. Por aqui, o pranto é baixo, fica preso na garganta ou se esconde sob a aba do chapéu. Respeito se mostra assim - sem estardalhaço, só presença.
Um cusco rodeou o galpão. Uma erva demorou a amargar. O vento ficou parado, e até o tempo pareceu tomar um mate mais demorado.
O destino gritou: - Tarca! E ele, que já esperava, foi como se vai pra casa - sem dívida, sem promessa, com a alma limpa como campo depois da chuva.
Agora mora na memória do pago, na sombra da cruz, no fundo da conversa quando o silêncio aperta e alguém diz: “Lembra dele?”
E ninguém responde. Só sente.
Foi ficando um espaço estranho entre os arreios pendurados e a lenha por cortar. Como se o tempo tivesse deixado de servir pra alguma coisa.
O galpão é o mesmo. A cinza ainda guarda calor nos cantos do braseiro. Mas tem um cheiro de ausência que a gente só nota quando volta e encontra tudo no lugar… menos a presença.
Na cozinha, o prato a menos não foi tirado - foi entendido. E a chaleira ferve do mesmo jeito, mas ninguém mais diz: “Passa o amargo pra cá.”
Porque o amargo, agora, é outro.
E nas madrugadas frias, quando o orvalho começa a contar segredos pra ponta dos capins, às vezes parece que ele ainda respira por ali, deitado sobre a paz dos que fizeram o que deviam.
A lua, campeira antiga, segue clareando o potreiro. E talvez seja pra ele, agora, que ela canta sua luz sobre os campos que não têm mais cerca nem porteira fechada.
E então, no tempo que seguiu, sem pressa, sem fazer alarde, a saudade foi virando chão.
O que antes doía calado começou a florar nos causos, nos ditos soltos no ar, nos silêncios respeitados em roda.
Alguém herdou seu facão. Outro aprendeu a matear mais demorado. E o guaipeca, que andava sem rumo, achou um novo dono - ou foi dono quem o achou.
Um piá ouviu uma história dele e perguntou com brilho no olho: “E era de verdade esse tal de finado?” E o velho sorriu, como quem vê a memória brotar do campo cansado depois de um inverno bem cumprido.
Agora, ele é parte do pago, como o cheiro da terra molhada, como o canto do quero-quero ao longe, como a sombra comprida dos fins de tarde.
Morreu, sim. Mas não se foi.
Ficou de outro jeito - vivendo em tudo aquilo que não tem mais o nome dele, mas ainda carrega o jeito que ele tinha de estar.