Desavença
"Pelou a chiba de um cusco", sem ter dó nem piedade, E sem saber que o impulso não justifica a maldade; Semeou a desavença numa atitude impensada, Por tê-la visto cruzando pelo seu campo, e mais nada.
Ignorou que a cruzada onde ocorreu este fato Fosse o caminho da estância para o rancho do mulato; Quê tendo changa, em verdade, era só prender o grito E já rumavam pra lida deixando o rancho "solito".
Era da mesma ninhada do que beirava o estribo, Regalou ao desmamá-la, depois matou, sem motivo. Bem na volta da paleta o balaço entrou zunindo, Deixando um morto e outro desatinado, latindo.
O seu fulano de tal, só depois de tudo isso Se deu conta que era tarde, estava feito o serviço ... Não teria nem desculpa de não ter reconhecido Que o seu cachorro e aquele eram muito parecidos.
Naquele dia o changueiro, andava longe, lidando, Mas no máximo em dois dias estaria retornando; Por isso que o ovelheiro dessa vez ficou de guarda, E acabou perdendo a vida na mira de uma espingarda.
O atirador foi embora, levando pelo caminho O peso na consciência, do que dizer pro vizinho; Sentiu no ar algo estranho, vindo do fundo da alma, Até chamarem seu nome, gritando e batendo palma.
A desconfiança pairava nos ares ...
Era alguém que deu por falta do seu cachorro ovelheiro Ao chegar de uma empreitada em outro rincão campeiro; Campeou na volta do rancho, chamando com assovios, Para depois fazer buscas e saber se ninguém viu.
Bateu na sede da estância lindeira com sua morada, Onde há muito e muito tempo trabalhava, por bolada; O lugar mais evidente para o cachorro ter ido, Talvez matar a saudade de onde havia nascido.
Era um sábado de tarde, desses que a indiada se empolga E vai no rumo da vila pra aproveitar bem a folga ... O galpão tava fechado, e nem sinal do caseiro, Só uma janela entreaberta na casa do estancieiro.
Gritando e batendo palma pra ver se alguém lhe atendia, Acordou a cachorrada que estava atada e latia, E foi lá pelas cansadas que ouviu uma voz distante Vinda dos fundos do pátio lhe dizer: "passe pra diante"!
Primeiro pediu licença, depois cruzou a cancela, Sempre muito respeitoso, como a hombridade revela; Sacou o sombreiro de pronto, num "buenas seu ... tudo lindo"!? Com a mão direita estendida, cumprimentando e sorrindo.
Lhe recebeu como sempre o seu fulano de tal, Um mate de boas vindas, e um jeito "mui" cordial. .. Mas já sabendo o motivo da visita do mulato, Que até então não sabia o "assucedido" de fato.
Olhando firme nos olhos, palmeando a cuia e proseando, Buscando a volta do assunto feito quem "ta" se estudando ... Um desconfiava do outro, os dois "em cima do muro", O mulato atirando verde e querendo colher maduro.
Sempre com muito cuidado, que a mágoa às vezes se evita, E a certa altura da vida o homem não facilita; Falaram de tudo um pouco, puxando pela lembrança, Prezando acima de tudo a lei da boa vizinhança.
Assuntado se o cachorro não havia aparecido O estancieiro por sua vez bancou o desentendido, Daí foram dois, três causos e o mulato sem demora Agradeceu pelo mate, levantou-se e foi embora.
Mas como o tempo não falha, estava dada a sentença ...
No outro dia, era domingo e tinha carreira atada Lá na cancha do bolicho pra reunião da gauchada ... Lugar onde se conversa bastante com todo mundo E qualquer acontecimento é notícia nesses fundos.
Foi por lá que um comentário acabou se espalhando, Dizem que alguém viu, de longe, o seu fulano atirando Num cachorro ovelheiro, que a cem metros de um "ranchito", Andava cruzando o rastro por ter ficado solito.
Pela descrição da cena, do atirador e o cavalo, O ovelheiro foi morto por quem lhe deu de regalo; Tranquilamente o mulato conseguiu manter a calma, Mesmo ciente de um fato que calou fundo em sua alma
Voltou pro rancho em silêncio sem entender o motivo, Mas vendo porque o vizinho lhe pareceu tão esquivo ... E saber qual a razão já não tinha diferença, Que a um homem sem compaixão, lhe cabe qualquer sentença.
Segunda, de manhã cedo, entre o errado e o certo, Pra ter certeza o mulato resolveu olhar de perto; Logo abaixo da cruzada que era do rancho pra estância, Achou o cachorro morto a alguns metros de distância.
Só encontrou por ter visto o movimento da corvada, Sobrevoando o lugar com suas garras afiadas ... Já com os olhos comidos, pois este é o primeiro passo, E bem na volta da paleta tinha o furo do balaço.
Fez pra si mesmo a promessa que se estende há tantos anos De não falar, nem pisar mais na estância do seu fulano Que mais tarde, por confesso, disse como aconteceu, E pelo erro o mulato lhe entregou nas mãos de DEUS.