Barba Roxa
Barba Roxa foi mascate, de Alegrete a Santiago, legenda pampa do pago com sua barba escarlate, bom de prosa e debate, conselheiro de paciência, fez fama e benevolência com seu talento e produtos, esparramando seus frutos pelos pagos da querência.
Da costa do "Lava-pé" lá do "Cerro dos Guaraipo" saiu levando seus “trapo” ajoujado na sua fé, cruzou por igarapé, mato, várzea e coxilha, amassou barro e flexilha tatuando na terra valos com os cascos dos cavalos e sua carroça na trilha.
Homem da roça, campeiro, de alma intemerata, sapiência autodidata na função de curandeiro, foi trovador e gaiteiro de destreza afamada, fazendo festa animada nas carpetas de primeira, em domingos de carreira e ranchos beira de estrada.
Riscou linhas na estrada escrevendo sua história, de maneira compulsória e atuação destacada, sua carroça toldada foi botica e cobertura, proteção em noite escura, dia de sol, chuva e vento, era casa e instrumento de transporte pra lonjura.
Transportava no costado, palha de milho e mistura, erva, fumo, rapadura, papel colibri, melado, às vezes fazia fiado, cobrava em outra ida, a carroça era sortida de plantas medicinais, mas para ele tinha mais, sua carroça tinha vida.
Barba roxa, curandeiro, dos males do organismo, dentro do seu empirismo conhecia jujo campeiro, receitava pelo cheiro suas plantas medicinais conforme fossem os ais que acometiam pacientes pra não ficarem doentes, além de outros que tais...
Tinha no alcance da mão pro estômago, macela, a mamica de cadela pros males do coração, pra qualquer inflamação arsênico era a pedida, para cicatrizar ferida a camomila ou guaco e se o cuera fosse fraco uma gemada batida.
Levava o mel de irapuá para aliviar o pigarro e para frouxar o catarro a folha do cambará, pra bexiga o araçá, pra digestão pitangueira, prisão de ventre, cidreira, pra vermes caraguatá, arnica pra "afumentá" "junta" e dor nas "cadeira".
Tinha receita de valor pela prática da idéia, poaia pra diarréia, beladona para dor, reconhecia pela cor o que a pessoa carecia, p’ra sangue grosso fervia casca da carne de vaca, raiz da cancorosa fraca e ainda a sete sangria.
P’ra cada mal tinha fim, atendendo com suporte, acônito p’ra febre forte, quebra pedra para o rim, pro ânimo alecrim, o louro pra infecção erva de touro, pressão, manjericão, resfriado, poejo também indicado, pra tosse, mel e limão.
Resolvia quase tudo com autoconhecimento expandindo seu talento na prática, sem estudo, conhecedor macanudo da sua terra e cultura, animais, agricultura e a males com desconfiança, aplicava sem cobrança simpatia e benzedura.
Benzia com fé e devoção, fazendo o sinal da cruz, a Maria, José e Jesus, pela sua intersessão, rogando na oração mediante a benzedura, por quebradura, rendidura, animais, lavoura, casa, com água, tesoura e brasa, para livramento e cura.
Fazia reza com fervor, pra quebranto e mau olhado, tudo que é machucado ou seja, qual fosse a dor, íngua, sapinho, calor, cobreiro, nervo rendido, espasmo, osso ofendido, olhos, impinge, entranha, picada de cobra ou aranha, cabeça, dente e ouvido.
Para acalmar temporal, sinal da cruz com machado, para a tormenta virado ou no chão u'a cruz de sal, dispondo a cada ritual do devido instrumento, pra ter um sono a contento sob o travesseiro botava uma tesoura que cortava pesadelo e tormento.
Barba Roxa foi mascate, de Alegrete a Santiago, legenda pampa do pago com sua barba escarlate, alma de alto quilate que em luz se transformou, e como herança deixou fazer o bem, sem papel, seu nome era João Manoel, pai do meu pai, meu avô.