Depois da Chuva
Um clarão risca o espaço Prenunciando o tempo feio O vento golpeia o mato Com laçaços de tormenta E um bando de brancas garças Revoa buscando abrigo
O pescador volta o barco Nem lançou os espinhéis Recolhe também as redes Rumando de volta ao rancho Não é hoje que as piavas Vão pular do rio pra mesa
O vento segue cantando Lamúrias de tempestades O velho angico do mato Parece perder o entono Se revira e se adelgaça Mas segue firme no chão
O céu despeja o dilúvio Anunciado nas trovoadas E os lampejos dos clarões Riscam raios no horizonte E o rio se abre pra enchente Engolindo o aguaceiro
Os campeiros no galpão Não saíram para a lida Reviram o foguito manso E cevam um topetudo Os olhos levantam preces Prevendo o que está pra vir
A água beija a barranca Com fúria de correnteza Toma forma e sai do leito Pra se perder campo a fora Vai levando tudo adiante Nada mais pode conter
A força da correnteza Abre caminhos no pampa Não desvia nem das casas Cruza sem pedir permisso A natureza reage Com clamor de temporal
O gado sobe a canhada E se abriga na coxilha E mesmo assim os mais lerdos Não escapam da enxurrada Passam boiando na aguada Mugindo preces pra deus
A tromba d’água derruba A taipa dos arrozais Por certo safra perdida No bolso do agricultor E os dias rondando a fome Na mesa do peão rural
Pro patrão tudo é despesa O que importa é o patrimônio Tem que levantar as cercas Refazer taipas do açude Repor o que foi perdido - Coberto pelo seguro -
A chuva judia o pasto Faz dias e não se cansa Invade campo e lavoura Persiste e não dá trégua Amanhã é outro dia Quem sabe tudo melhora
Ainda existe esperança Nos olhos de quem tem fé Santas mulheres do campo Resiliência e oração Se apegam na divindade Confiando no criador
Um “tajã” revira o ninho E se ajeita com cuidado Espera voltar o sol Pra seguir o seu destino De ver florescer a vida No porvir de um novo dia
A chuva, enfim, foi-se embora O sol voltou a brilhar O rio retornou ao leito Águas calmas em remanso E um sabiá abre o canto Pois o campo renasceu!