Um Cantar de Boas Vindas Para Pedro Cigarra
A muito que não se ouvia Nos fundos deste rincão, Uma cantiga sonora Que despertasse as auroras Com um dedilhar de violão. O velho Pedro - campeiro Que se afastou deste mundo, Pegou novamente a guitarra Que outrora fora cigarra Com canto nobre e fecundo.
Intrigou o vizindário, No velho rincão da Palma. Uns dizem que o cantador Por conta de um desamor Silenciou a própria alma. Quem antes cantava versos Nos domingos no povoado, Passou a falar sozinho, Assoviando - baixinho Enquanto buscava o gado.
E o dia mostrou sua cara Clareando em melodia. E num rancho, costa de mato Cantarolava o mulato Cantigas de nostalgia. Na estrada todos paravam Para ouvir o cantador. E até mesmo a cavalhada Se achegou bem desconfiada Pra perto do parador.
Seria um novo amor Na vida do pobre Pedro? Ou seria a canha branca Misto de diaba e de santa Deixando o mulato alpedo? Ou Pedro entendeu o motivo Que dá razão para a existência E o real sentido pra vida?
Somente o tempo dirá, Ou também guardará segredo. O motivo da cantoria Daquela voz rouca e macia No rancho do velho Pedro. E clareando nasceu o dia Num domingo de verão. Ao escutar a guitarra Do velho Pedro - Cigarra Nos fundos deste rincão.
Desde então, agora é assim... Quando o dia vem clareando A cada romper de aurora Se escuta além das esporas, O velho Pedro cantando Pois a tal felicidade enfim mostrou a cara E se acampou junto “as casa”. Pois nela abita um campeiro Que canta tal qual o barreiro Abrindo seu par de assas.
No distante Rincão da Palma Ensinamentos pra uma vida inteira O mundo mudou seu rumo E o destino achou seu prumo Mostrando a lição primeira. Tudo se reinventa, seja casa, canto - querência No bolicho lá do povoado Novamente tem verso rimado Crioulos de procedência.
Qual o peso do silêncio De quem prendeu-se no próprio ser? Quantos de nós silenciamos Ou fomos silenciados?
Ninguém hoje está livre Aconteceu com o Pedro E acontece com todos nós. Nos enredamos nos nós Nas tantas voltas da vida. Mas um dia tudo se ajeita, E o que era torto endireita E a paz vem logo em seguida.
Pedro saiu do casulo E novamente renasceu. No velho Rincão da Palma Libertou novamente a alma Que há tempos atrás prendeu. Que sejamos todos Pedros Na busca de um recomeço, Sabendo que pra toda ação Existe uma reação Que nos cobra um alto preço!
Hoje um cantar de boas vindas Pra o velho Pedro Cigarra. Com o violão em punho Um dedilhado terrunho É um tigre afiando as garras. Um cantar de boas Vindas Pra felicidade que se alonga. Nos fundos deste rincão Tem luz, terra e emoção Nos braços de outra milonga!